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Os sambas em que Aldir Blanc cantou a cachaça

Por Dirley Fernandes

A obra de Aldir Blanc, poeta, cronista e um dos maiores letristas da história da música popular brasileira, é todo um inventário de brasilidades, um baú de carioquices, uma coletânea de tijucanices (para quem não conhece o Rio, a Grande Tijuca é a região de onde saíram Cartola, Noel Rosa, Braguinha, Tim Maia, Roberto Carlos, Jorge Benjor… um microcosmo que traduz a cidade postado entre as regiões mais pobres da Zona Norte e Oeste e o Rio solar da Zona Sul).

Como tal, em meio a todos esses símbolos de um país muitas vezes desconhecidos do Brazil, como o poeta cantou em Querelas do Brasil, a cachaça figura em vários momentos, com diferentes valores simbólicos.

Cá do nosso canto do nosso balcão, com o cotovelo sobre a estufa imaginária de sardinhas e orelhas de porco no feijão, despeçamo-nos do mestre – que bebia caipirinha coada e sem açúcar– lembrando algumas dessas pérolas persistentes como as que enfeitam os cálices das cachaças mais generosas.

Aldir Blanc e a cachaça: Mestre Sala dos Mares

Uma das canções mais icônicas da obra de Aldir Blanc é Mestre Sala dos Mares. Nela, o poeta homenageia um herói que insiste em permanecer na memória das “lutas inglórias” do povo brasileiro: João Cândido, o Almirante Negro, o marinheiro que liderou, em 1910, a Revolta da Chibata.

No refrão da música, o coautor João Bosco puxa o coro:

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glórias a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais

A referência à cachaça não tem nada de gratuita nesse glorioso samba. A revolta dos marujos contra os castigos físicos vinha sendo arquitetada há muito tempo, mas foi precipitada por causa de… duas garrafas de cachaça.

Ocorre que, em 21 de novembro, o marinheiro Marcelino Rodrigues, voltando de uma folga, tentou embarcar no navio Minas Gerais, ancorado na Guanabara, com duas garrafas da “amiga do povo”.  Flagrado, ele reagiu, mas foi preso a uma argola de ferro e recebeu uma pena severa: 250 chibatadas. O castigo foi aplicado no convés, à frente de todos, à guisa de exemplo. Não foi interrompido nem pelo desmaio do marinheiro.

O fato fez com que a marujada, liderada por João Cândido, precipitasse o motim. João também tinha sido punido, cinco anos antes, com redução do soldo pela mesma falta de Marcelino: levar cachaça para bordo.

A história completa contamos nesse post. Por aqui, só adiantamos que João fez um acordo com as autoridades que previa o fim da chibata, mas foi traído e preso. E o poeta sintetizou essa história nos seus versos em plena vigência do regime militar.

‘Uma do alambique’

Em outra das pérolas do bardo com o parceiro João Bosco (Siri recheado e o cacete), a cachaça é tratada como a companhia especial de um banquete pós-pescaria que incluía “croquete, bobó, panqueca, siri recheado, fritada e o cacete”.

João anuncia no verso: “O Anescar chegou com uma do alambique!“, completando o cenário de delícias de uma tarde domingueira na Zona Norte após a pescaria na Barra da Tijuca e uma viagem de ônibus portando os siris.

Na relação do que havia sido levado para a pescaria não faltou “birita que dá garantia de ter maré cheia“.

Pena que o Anescar, alérgico, não pôde curtir tão bem a festa. Vejam o desfecho do samba:

O Anescar chegou com uma de alambique
Me perguntou se eu era Mendonça ou Dinamite
Abri uma lourinha, trouxe um prato de croquete
O Anescar mordeu um, feito que come gilete
Baixou minha patroa: Anescar, que qui há?
O Anescar gemeu
Huuum… dieta de lascar
O médico mandou que eu coma tudo que pintar
Até cerveja e cachaça
Menos os frutos do mar.

Uma outra joia da parceria Bosco-Blanc é o partido alto Parati.

O João mandou parati
Pra você se segurar.
Só não come a farofa amarela, morena,
Do teu alguidar

Na letra, em que a cachaça assume o nome da cidade que foi um dos berços de sua produção, a parati é a companheira da hora difícil, após o poeta perceber que sua amada, Etelvina, o trai com o amigo Claudionor (não sabemos se o nome do comborço é uma referência à famosa e tradicional marca de cachaça de Januária).

Eu fui me encher de cachaça.
Cada um tem a própria receita, morena,
Pra combater a desgraça.

O mesmo acontece em outro samba, Tal mãe, tal filha, na qual o poeta se queixa da filha da adúltera da minha sogra, que Deus a tenha, o terror da Penha.

Depois de dizer que ela é uma “urucubaca”, ele confessa, juntando a seu lamento passional um comentário político revelador de que frituras ministeriais não são tema recente:

Eu ando enchendo o funil de cachaça/
Caio mais que ministro em desgraça

Beber cachaça também assume em Chá de Panela, parceria com Guinga (que não bebe) na qual a dupla homenageia o gênio nordestino Hermeto Paschoal, o papel de “coisa de macho” tão comum na cultura popular, em especial a nordestina:

Me convidou pra uma pinga
Meu não pesou com dó
Piscou um olho só
Disse que eu tiro da seringa
Que home que não bebe e nega mocotó
Acaba quenga em vez de guinga
Se veste de filó, afrouxa o fiofó

Já em Gênesis, a cachaça assume papel de elemento de uma celebração de caráter religioso, em uma espécie de presépio carioca com divindades como Exu e Seu Sete.

Quando ele nasceu tomaram cana
Um partideiro puxou samba…
Aí Oxum falou: esse promete…
Promete, Oxum falou, esse promete…

Aldir Blanc e a cachaça: o malandro agulha

Há várias outras referências à cachaça espalhadas na obra de Aldir, até porque o botequim era um dos seus habitats enquanto teve saúde para isso. E ele os cantou em prosa, em crônicas primorosas, e em verso (Eu não resisto aos botequins mais vagabundosEu digo sempre que melhor que envelhecer ao lado dela/ É ir mofando entre o torresmo e a moela“…Eu sou da noite, das calçadas sem ninguém/ Na solidão meu coração se sente bem/
O sol que é tão metido a astro-rei/ Sempre apagou nos botequins onde brilhei).

Mas para finalizar mostrando como a cachaça se liga aos valores mais genuínos na obra de Aldir, lembramos a referência ao destilado nacional numa letra em que fala do “malandro agulha”, personagem tipicamente brasileiro – aquele que quer se dar bem a todo custo e só deixa furo por onde passa.

Aldir cita “riquezas” do Brasil que o malandro agulha, no fundo, detesta ou só usa para fins utilitários, como a cachaça, a farofa (lembram do refrão do Mestre Sala dos Mares lá em cima, no qual esses dois elementos são louvados? O malandro agulha é a própria antítese do herói do povo no imaginário blanqueano, mas ele é tratado com ironia até carinhosa) e o futebol.

Eu detesto farofa e parati
O meu sonho é brilhar no futebol
Porque vivo durango o ano inteiro
Mas afim de bicar o caviar

E assim vamos nos despedindo de Aldir Blanc, poeta do povo, da alegria e da dor dividida com cada brasileiro nos balcões dos bares e nos recônditos mais profundos dos nossos corações.

A dose pinga nos lábios
Cura teus males, mas também te mata
E escreve, de leve
Em sangue o veio de um lembrete
No seio o último bilhete
(Antídotos, com Ivan Lins)

Leia mais artigos sobre cachaça aqui.

Um comentário

  1. Excepcional meu ” Canarada”.
    Abraço forte feito…uma do alambique!

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