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Renato, ao centro sem chapéu, e Carlos Magalhães, quarto à esquerda de Renato, sem chapéu

A greve da cana de Quissamã: cachaceiros em luta na ditadura

Haroldo Carneiro da Silva, descendente do poderoso Barão de Araruama e produtor da Cachaça Sete Engenhos, é um belo cachaceiro – a 7 Engenhos Cerejeira ocupa espaço privilegiado na prateleira aqui da redação – e também historiador diletante e cultor das raízes culturais de sua região: Quissamã, no norte do Estado do Rio, aonde sua família chegou lá pelo século XVIII.

Haroldo aproveitou a quarentena para contar um causo dos mais interessantes sobre sua cidade, que tem toda sua história ligada à cultura da cana – e ao açúcar e à cachaça, por extensão.

Então, vamos saber como foi a Greve da Cana, em 1966, um tempo em que o Brasil sofria uma escalada autoritária que daria no AI-5 – nesse mesmo ano, aliás, em outro arreganho autoritário, um delegado proibiu que biroscas localizadas em favelas carioca vendessem cachaça, ordem fartamente desobedecida, é claro, entre brindes ao meganha.

Mas vamos à história: com a palavra o nosso nobre Haroldo Carneiro.

Na metade da década de 1960 do século XX, o Brasil atravessava uma de suas crises econômicas, em meio à crise política, que resultou no golpe militar de 1964.

Em Quissamã, a crise se manifestava de forma mais clara no baixo preço da cana-de-açúcar nesse período conturbado, que trazia grandes transtornos para fornecedores de cana e prestadores de serviço do Engenho Central de Quissamã (a “Usina”), mola propulsora da economia local desde o final do século XIX até o início do século XXI.

Alegando dificuldades de comercialização, a Usina iniciou a safra de 1966 sem quitar o pagamento da cana fornecida pelos produtores na safra de 1965.

Inconformados com essa situação, os fornecedores de cana de Quissamã, liderados por Dr. Renato de Queirós Carneiro da Silva (Dotô Renato), da Fazenda São Miguel – meu pai – e Carlos Magalhães, da Fazenda Prosperidade, com apoio dos fornecedores de Carapebus, em um ato de bravura e coragem em plena ditadura, iniciaram uma greve sem precedentes na história canavieira do norte fluminense.

Essa atitude, talvez, só tenha precedente no setor canavieiro 300 anos antes, na famosa Revolta da Cachaça de 1661, quando os produtores de cachaça do Rio de Janeiro se rebelaram contra os pesados impostos com que os portugueses taxaram a mais brasileira das bebidas.

Na Greve de 66, os fornecedores se reuniram e não só deixaram de fornecer as suas canas para o Engenho Central, como impediam a entrada da cana própria da Usina, que foi obrigada a parar a fabricação de açúcar.

Naquela ocasião, o dono da Usina Quissamã era Edilberto Ribeiro de Castro, filho de Joaquim Bento e neto de José Ribeiro de Castro, tronco da nossa família que nos anos 1920 concentraram todas as ações do Engenho Central de Quissamã, que tinha sido fundado em 1877, como o primeiro do gênero no Brasil, em forma de cooperativa.

O poderoso dono da usina

Edilberto, além de ser um dos usineiros mais abastados do país, era muito influente. Ele fora deputado federal e transitava com desenvoltura no high society carioca. Costumava trazer pessoas influentes para passar dias na bela sede da fazenda São José, como o irmão de Getúlio Vargas, Benjamim Vargas, vulgo Bejo. Bon vivant , tripudiou dos fornecedores: “O que vocês têm para receber, eu gasto numa noite no Copacabana Palace”.

Com toda sua influência, Edilberto começou a pressionar os produtores, usando puxa-sacos como interlocutores. Chamou um a um, ameaçando com represálias, dizendo ter apoio da polícia e das autoridades daquele início de ditadura.

Assim, com o tempo, só restaram no movimento grevista dois fornecedores: Dotô Renato e Carlos Magalhães, com o apoio dos aguerridos fornecedores de Carapebus, que apesar de botar as suas canas na Usina Carapebus, deram muita força aos canavieiros de Quissamã.

Esse imbróglio todo desaguou no dia fatídico, o dia D para os fornecedores. Com o apoio da polícia de Macaé, sede do então distrito de Quissamã, os funcionários da Usina, determinados a furar o bloqueio dos grevistas, marcharam com um trem de carreta cheio de cana puxado por um trator, como era costume na época, com o propósito de entrar no peito e na raça na Usina e retomar a moagem e a produção de açúcar.

Um gesto raro de coragem

Eis que, num ato de rara coragem e valentia, especialmente naqueles tempos de chumbo, Dotô Renato e Carlos Magalhães, sempre com apoio dos carapebuenses, não arredaram pé. Seguiram impedindo a passagem do trem de cana, a ponto de, numa atitude surpreendente, Carlos Magalhães se deitar na frente do trator para que esse não seguisse o trajeto para a Usina.

O chefe da polícia, que estava visivelmente alcoolizado, ao ver aquilo, surpreso, mas sem querer perder a parada, ordenou que o tratorista avançasse. Neste momento, o pai de Carlos Magalhães, Sr. Affonso Magalhães, um cearense arretado, que andava sempre com uma moderna pistola automática na cintura e assistia a toda cena, gritou para o chefe da polícia, apontando a arma para o seu peito: “O Carlos é o meu único filho. Se ele morrer você vai junto!!!”.

Sentindo a gravidade do momento, o chefe da polícia recuou e se recolheu para dentro da Usina. Reuniu-se com a diretoria. Para resolver o impasse, a Usina concordou em quitar as canas fornecidas na safra de 65, e a greve acabou, cumprindo o seu objetivo.

Mas, nem tudo foram flores para os fornecedores. Num ato de vingança, a Usina iniciou uma perseguição aos revoltosos. Começou por querer cortar a linha de telefone que desde de final da década 1870 interligava todas as fazendas, já que Quissamã foi o segundo lugar no país a contar com essa fabulosa invenção de Graham Bell, trazida para o Brasil pelo Imperador D. Pedro II, que incentivou o Conde de Araruama, presidente do Engenho Central, a fazer o mesmo, unindo por fios de telecomunicação as fazendas e as fábricas de açúcar e de cachaça.

Sob a luz do lampião

A portada da São Miguel no rótulo da Sete Engenhos

Determinada a punir os grevistas, a diretoria da Usina enviou funcionários a São Miguel para retirar os postes e fios de telefone. Mas meu pai sabia que, quando o meu avô comprou a fazenda, a linha telefônica veio junto. O documento que comprovava isso se encontrava dentro de um cofre, do qual ele tinha esquecido a senha. O seu irmão, Oscar, que passava férias na fazenda, com paciência, conseguiu abrir o cofre e resgatar os documentos que comprovavam pertencer à São Miguel as instalações do telefone, que continuou a funcionar na fazenda até 1972.

Mas, com a energia elétrica, não tivemos a mesma sorte. A Usina cortou o fornecimento de luz para a Fazenda São Miguel, que tinha energia que vinha do Engenho Central há anos.

Com isso, na minha infância, de 1966 até 1970, ficamos sem energia elétrica em São Miguel, e a casa era iluminada por velas e lampiões, com geladeira a querosene.

Para ver a Copa do Mundo de 1970, papai comprou um gerador a diesel e uma TV, e assim pudemos ver Pelé e companhia ganhar o tricampeonato em cima da Itália, com 40 pessoas, entre família e trabalhadores, na sala de jantar da casa grande, com direito a bolo em forma de bola feito por Dona Irene.”

Finalizamos esse post no feriado dedicado ao herói que ousou sonhar com a liberdade do Brasil, Tiradentes,  brindando, com Cachaça Sete Engenhos, ao Haroldo Carneiro e aos produtores que resistiram à injustiça e ao autoritarismo em 1966.

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Um comentário

  1. Rosane Corrêa Ferreira

    Parabéns, Haroldo Carneiro!!! Em tempos tão difíceis é muito bom ouvir histórias de resistência!!!

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