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Nina Bastos, do Jiquitaia: ‘O Covid é avassalador’

Nina Bastos, sócia e bartender do Bar do Jiquitaia, de São Paulo, famoso por seu Caju Amigo – composto com a cachaça Princesa Isabel –, entre outros drinques que fazem da casa uma das principais referências de coquetelaria com cachaça da cidade, foi vitimada pelo coronavírus.

Ela e o marido, Bernardo Pinto, estiveram entre as primeiras pessoas contaminadas pela doença em São Paulo. Apesar de jovem e com boas condições físicas, ele teve que passar pela UTI, mas agora o casal está em casa, cuidando de se recuperar física e emocionalmente.

Nina Bastos publicou em seu Facebook um duro relato sobre a trevosa experiência do casal com a Covid-19 e garante aos poucos que ainda insistem na negação: “O Covid-19 NÃO é só uma ‘gripezinha’; o Covid-19 é avassalador”.

O lado do Covid que ninguém conta

Primeiro vem a negação, você está cansado, está pegando pesado demais no trabalho, é só uma virose. A gente acha que sabe tudo da doença mas no fundo, bem lá no fundo, você não acredita que vai bater na sua porta.

Passa um dia, passa dois, aí a ficha começa a cair e resolvemos separar tudo, quarto, banheiros, talheres, e mesmo assim nem imagina que na real tem muito mais que TUDO isso pra fazer.

Foi lá no comecinho, antes de todos se isolarem. Era mesmo só coisa de televisão. Até que recebo uma msg durante o trabalho: “Posso estar com coronga”.

Vindo dele sempre tem um semi-humor e eu me vejo ali, no meio de toda minha equipe… Ninguém se tocava há alguns dias já, mas estava ali e podia ser um perigo pra todos. Começa então a fase do lixo humano. É assim mesmo que você se sente. Um lixo humano. Pra quem eu posso ter transmitido? Quando vai aparecer os sintomas em mim? Fecha tudo! Ninguém me encosta! A partir de agora TODOS em quarentena!

Chego em casa e só penso em coisas práticas. Precisamos comer durante 15 dias, cozinho, congelo, cozinho, congelo. Avisa um, avisa outro. Quem lembra de todo mundo que esteve junto na última semana? Em tempos normais é impossível. Eu dona de restaurante e ele professor, vendedor e faz tudo de uma importadora de vinhos, como lembrar de todos? São mais de 100 pessoas! Impossível.

Alguns se desesperam e sequer perguntam da nossa saúde. Volta a sensação. Lixo humano. Já são cinco dias de Covid em casa e mal falei dos sintomas. Claro, eu não estava sentido. Por enquanto era só uma “gripezinha” num jovem, magro, saudável e sem problemas respiratórios. Ia ficar tudo bem logo, eu só precisava de comida pra quando estivéssemos os dois com a tal “gripezinha”. Ligo para um grande amigo médico e faço perguntas práticas da doença, sou muito bem orientada dos procedimentos e sigo acreditando que era só uma “gripezinha”. Pera aí, “gripezinha” não precisa medir temperatura e saturação de tempos em tempos.

Mesmo com as orientações, ainda não tinha me dado conta. Claro, eu não estava sentindo. Medidas de saturação e temperatura acima do normal, segundo orientações médicas. Agora é hora de ir ao hospital.

Mas pera aí! “Gripezinha” leva gente pro hospital as 23hrs? Primeiro atendimento médico do PS: “O caso dele é gravíssimo, vamos interná-lo”.

Essa frase não saiu da minha cabeça por semanas; a ficha caiu igual a uma avalanche. Desmoronei mesmo. Vem todos os piores pensamentos do mundo. Claro, ele é A pessoa da minha vida.

Como eu não tinha me dado conta da gravidade do caso? Lixo humano novamente. Internação, isolamento total dele e meu no hospital, as pessoas só falam com a gente com máscaras, óculos, roupas e a distância. Por segurança de todos, claro.

Lixo humano.

Dezesseis horas passaram; aí então tivemos uma avaliação da infectologista: “O caso dele é complicado mas ele é jovem e saudável; vamos ser otimistas, agora você precisa ir pra casa e se isolar de tudo e de todos”.

Voltar pra casa sem ele: essa foi a pior das dores. Eu só queria ficar lá, ao lado dele, cuidando do meu jeito meio tosco.

Fui pra casa, dirigindo, sozinha, aos prantos. Eu só queria ficar lá, ao lado dele. Como sobreviver isolada e longe dele? Eu tinha comida, muito comida. De nada importava aquela comida, eu não tinha ele. Sobrevivi. Eu tenho o cachorro mais legal do mundo e a melhor rede de pessoas por perto.

Tenho uma amiga que me mandava uma música linda e me incentivava a dançar. Funciona, acreditem. Tenho vizinhos, que me davam comida quentinha e me viam chorar através do nosso muro de um metro e meio. Tenho um amigo que me ligava várias vezes por dia via vídeo, pra eu não me sentir só. Tenho pais, que estavam aqui, mesmo bem longe, estavam aqui. Tenho amiga que deixa pão com carta e desenho no muro, amiga que deixa pudim no portão e da tchau do outro lado da rua. Todos esses são gestos que pra alguns parece nada, mas foi o que me manteve em pé. Eu tenho mesmo muita sorte.

Entre UTI, quarto, cateter, lágrimas, angústias, inseguranças, sobrevivemos aos 14 dias de coronga.

Sigo tentando me levantar dessa avalanche emocional que me derrubou. Mesmo assim eu tenho sorte, tenho ele e nem sei o estrago físico que essa doença provoca. O trabalho dele é dobrado, se recuperar física e mentalmente.

O Covid-19 NÃO é só uma “gripezinha”, o Covid-19 é avassalador. Preparem seus pulmões e suas cabeças; todo o resto a gente reconstrói depois.

Nina Bastos

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4 Comentários

  1. Olá. Uma ótima recuperação a vocês dois. Que Deus abençoe suas recuperações. A vida continua. Até mais ver.

  2. Nina, que experiencia assustadora menina.. que bom que vcs já estão recuperados ao menos do 1o susto, como vc disse o resto se reconstrói, Deus protege a humanidade! Força querida!!

  3. Nina vc é uma mulher gigante eu já sabia e admirava agora vc é A mulher gigante que Deus ilumine este casal e que vcs tenham dias muito felizes depois do coronga admiração e respeito 🙏🙌

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