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Caipirinha e Gripe Espanhola: a ‘vacina’ popular na pandemia de 1918

A cachaça misturada com limão foi tão largamente usada ao longo da pandemia da Gripe Espanhola, em 1918, que muita gente chega a dizer que o coquetel nacional brasileiro foi inventado nessa ocasião. Ledo engano! Mas há alguma relação… Vejamos um pouco dessa relação entre Caipirinha e Gripe Espanhola.

Por Dirley Fernandes

Não é novidade o uso da cachaça na medicina popular. Na casa do futuro craque Garrincha, em Pau Grande (interior do RJ), na primeira metade do século passado, o “cachimbo”, uma mistura de cachaça com limão e ervas, era usado para tratar qualquer enfermidade, inclusive e erradamente, por crianças.

Mas o uso de aguardentes combinadas com limão como beberagem de efeito medicinal é muito mais antigo, sobretudo depois que se descobriu, em 1747, a eficácia do limão na prevenção e tratamento do escorbuto, doença que vitimava terrivelmente os navegadores.

O “Dicionário Prático, Teórico e Histórico do Comércio e da Navegação Comercial”, publicado em 1839, nos Estados Unidos, assinala o “largo uso do limão no preparo de ponches” de efeitos medicinais.

Ponche (punch, em inglês), aliás, é palavra que remete à poncha, bebida da Ilha da Madeira. A palavra daquela ilha esquina do mundo, por sua vez, remete ao vocábulo pãnch, de origem hindi e que se refere a uma bebida composta de aguardente de arroz, sumo de limão, açúcar, especiarias, chá e água.

Ou seja, a origem da caipirinha, no fundo, é a Índia.

Caipirinha e Gripe Espanhola

Mas voltemos à Espanhola. Quando a pandemia explodiu no Brasil e foram adotadas – de forma tardia em alguns lugares, como o Rio de Janeiro – medidas de isolamento, ressaltou naquele momento um aspecto bem diverso do que vivemos na pandemia da Covid-19: ninguém sabia o que provocava a doença. O vírus da influenza só seria isolado em 1933.

Em outro aspecto, as duas pandemias se parecem. Não havia vacina ou tratamento eficaz contra a gripe. Sem explicação científica e com respostas médicas insuficientes, os brasileiros do início do século XX se voltaram naturalmente para a medicina popular.

“A proliferação de receitas milagrosas, chás, emplastos, beberagens diversas espelham as insatisfações da população com a falta de atendimento adequado, com a impossibilidade de estabelecimento de um diagnóstico preciso, pela ausência de estratégias do governo e das autoridades sanitárias”, conta Leandro Carvalho Damacena Neto.

Nos jornais, começaram a pulular anúncios de elixires curadores – a exemplo do atual “soro da imunidade” que a médica Isabella Resenda Abdalla receitou contra o coronavírus. O  xarope de Grindélia e as pílulas do Dr. Manuelito Moreira chegaram a ter grande sucesso.

Mas nada superou o sucesso das beberagens à base de limão e cachaça, sobretudo, ao que parece, na cidade de São Paulo.

A mistura já era bastante popular nos botequins paulistanos àquela altura. Mário de Andrade a havia registrado anos antes da Espanhola, inclusive sugerindo que as contrafações já estavam em curso: “A batida paulista é realmente a melhor das misturas da cachaça. Quando legítima, isto é, com limão, água e açúcar apenas”.

Quando a Espanhola chegou e escassearam remédios, restou à população acreditar nos poderes curativos da pinga com limão. Nas casas, enquanto havia o fumigamento com infusões de folha de goiabeira para espantar os “miasmas”, as famílias distribuíam a mistura de limão com cachaça como forma de prevenção, acrescida às vezes de alho, cebola, canela etc…

Os limões foram o álcool gel da época. “Numa certa hora acabaram também os limões em São Paulo. Eu comia pouco, só tomava água com limão”. (BOSI apud BERTOLLI FILHO: 1986)

Voltando um pouco a história, há um registro oficial do uso dessa mistura em epidemias no Brasil. Em Paraty, os anais da Câmara revelam que em 1856 se usava “aguardente temperada com água, açúcar e limão” para combater o cólera.

Durante a Espanhola, as variantes da mistura se espalharam por todo o país. Em Sorocaba, a receita continha limão, canela, folhas de eucalipto, cebola e alho. Em Goiás, a queimada prometia a cura, como foi contado para a historiadora Leny Anzai.

“Punha pinga, casca de laranja, casca de limão, raspava rapadura, punha num prato, punha fogo naquela pinga. Depois que ela queimava, bebia aquilo na hora de deitar. Suava, e no outro dia amanhecia boa”.

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Com isso, apesar das orientações para o isolamento social – de forma geral, cumpridas –, os botequins paulistanos lucraram com a crença popular na relação entre Caipirinha e Gripe Espanhola. É o que conta um relato da época reproduzido pela historiadora Adriana Goulart.

“O botequim da rua do Thesouro e a Casa Pomona, no Largo da Sé, passam os dias repletos. Extranhando esse facto, procuramos saber a sua causa. Entramos no Pomona, dispostos a dar dois dedos de prosa com qualquer dos garçons. Não foi necessário. Um apreciador da branquinha, que entoava desafinadamente que ‘Pinga com Limão cura a urucubaca’, forneceu-nos indirectamente a explicação que buscávamos. Pinga com limão, se cura a urucubaca, também pode curar a influenza”.

Enfim, a Espanhola passou, depois de três ondas, deixando um rastro de pelo menos 50 mil mortes no Brasil – e 50 milhões em todo o mundo. Mas, ainda em 1957, se brincava com o uso da “caipirinha” na prevenção da Espanhola, que vitimou sobretudo a população das periferias de São Paulo e Rio de Janeiro. “Batida de limão é vacina de pobre”, escreveu Guilherme Santos Neves, n’A Gazeta.

Quanto ao drinque nacional brasileiro, ganhou a inseparável companhia do gelo, que não mais precisava ser comprado na Antártica, a fábrica de gelo (e cerveja) aberta em 1888, e podia ser produzido nos próprios bares.

E, na atual pandemia, se sabemos que cachaça, gelo e limão não vão nos salvar, podemos contar com a caipirinha para aliviar o fardo do nosso necessário isolamento – isolamento esse que tanto será mais leve quanto mais passarmos na companhia da alegria.

#FiqueEmCasa #VaiPassar.

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