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Universos paralelos da cachaça: contrastes de uma categoria em construção

Em artigo especial para o Devotos da Cachaça, celebrando o mês da mulher, Kátia Alves Espírito Santo, vice-presidente da Apacerj e produtora da Cachaça da Quinta, mostra como, entre estigmas seculares e premiações consagradoras, a cachaça conquista a preferência de apreciadores exigentes, mas ainda precisa construir consensos dentro do setor para alcançar uma posição de relevância a nível global.

Por Kátia Alves Espírito Santo*

A cachaça é um produto histórico, cultural e econômico do Brasil. Seu surgimento remonta às décadas iniciais dos anos 1.500, sendo o primeiro destilado das Américas. 

Os mesmos portugueses que introduziram a cana-de-açúcar e iniciaram a destilação da cachaça no Brasil estranharam o produto, afinal estavam familiarizados ao paladar da bagaceira (destilado proveniente da uva).  Mas, sem tardar, a cachaça foi se tornando a aguardente da nossa terra, caindo no gosto de todos, indo dos engenhos para casas grandes e senzalas – o povo, em geral, tecendo seu profundo enraizamento cultural. 

A cachaça nasceu litorânea, no início do período colonial, e expandiu-se, com a interiorização. Desenvolve-se ao longo da cultura açucareira, alcançando relevância econômica e protagonismo em terras fluminenses, onde os produtores realizaram, em 1660, a Revolta da Cachaça, contra as proibições comerciais e produtivas da bebida. 

Nas explorações de conquistas ao interior do Brasil, a cachaça alastrou-se no ciclo do ouro. Ela atravessou o Império, coexistindo com o café, sendo apreciada até mesmo por mulheres da época, em doses caseiras, reservadas, familiares, e, paralelamente, mantendo-se popular. 

Cachaça da Quinta: desde 1923

A cachaça foi estigmatizada, sobretudo, na nascente República, afeita a valores, gostos e produtos europeus, época em que muitos e duradouros preconceitos contra a cachaça foram tecidos em decorrência da embriaguez massiva dos escravos recém libertos, desassistidos política e economicamente. 

Na década de 1920, com os modernistas, a cachaça passou a ser glorificada, buscando-se revitalizar sua combalida imagem. Mas, somente a partir das décadas finais do século XX, o segmento produtivo da cachaça começa se profissionalizar, visando a melhorias em processos, tecnologia, mecanismos de controle, com empresários interessados na qualidade comprovada em produtos de padrão seguro dos pontos de vista físico-químico e sensorial. 

Anos 1970: início da organização

No decorrer do anos 1970, houve esforços isolados de produtores fluminenses, tentando revitalizar suas unidades produtivas de cachaça consoante à legislação. Mas Minas Gerais assumiu um relevante e amplo papel, organizando a associação dos produtores, em 1988, o que promoveu o desenvolvimento da indústria de equipamentos para pequenas empresas, a prestação de serviços especializados e o fortalecimento do sistema de distribuição da cachaça. 

Os produtores de cachaça do Estado do Rio de Janeiro constituíram sua associação de produtores em 1998, sendo que nessa época o predomínio de produtores informais era um fator limitante, mas mesmo assim importante para o exercício necessário de participação setorial. 

Por outro lado, a entidade integrou e contribuiu com o debate e o movimento organizativo nacional. A partir de 2011, a associação dos produtores de cachaça do estado (Apacerj) redefiniu seu papel institucional, permitindo exclusivamente a participação de produtores legalizados, com ações de base centradas em qualidade da produção, certificação de produtos e, também, em qualidade da informação e da comunicação estratégica sobre cachaça, além da participação ativa no setor nacional. Nesse contexto, foi elaborado um estilo comunicacional profissional, com conteúdos consistentes sobre cachaça, em contraste com as abordagens meramente jocosas e as “fake histories” socialmente predominantes. 

A Apacerj estruturou conhecimento sólido e massa crítica sobre cachaça, influenciando positivamente a comunicação a respeito no país. Publicações, artigos e palestras sobre cachaça, presença e participação em discussões relevantes setoriais, cursos de atualização profissional para serviços de cachaça em bares e em coquetelaria com cachaça de padrão internacional, por exemplo. Tratam-se de ações estruturantes que alicerçam a participação da cachaça no mercado de destilados. 

As marcas de cachaças do Rio, simultaneamente,  inseriram produtos e embalagens de alto padrão de qualidade, direcionados ao segmentos standard e premium, nos mercados interno e externo. O Rio de Janeiro passou a ocupar o segundo lugar em valores monetários de exportação de cachaça (atrás apenas de São Paulo). 

A questão da representação setorial

No plano nacional, o Instituto Brasileiro da Cachaça foi criado em 2006 e estabelecido em Brasília, um território capaz de reunir perspectivas e regionalismos diversos, através de um estatuto que assegura participação equânime, com igual número de cadeiras a produtores de grande e pequeno porte, no Conselho Deliberativo da entidade. 

A norma visa ao exercício do diálogo entre diferentes tipos de produtores, com a busca de denominadores comuns consistentes a fim de se construir relevância de posicionamento para a cachaça, além de outras atribuições institucionais e ações importantes, como foi, por exemplo, a atuação de relevo para o ingresso da cachaça no Simples Nacional.

Nesse contexto nacional de profissionalização e investimentos financeiros das empresas e de organização setorial, assiste-se um crescente número de marcas e linhas de produtos no mercado, focadas em qualidade – uma das preocupações centrais de produtores  e consumidores. 

A cachaça atraiu consumidores exigentes de destilados, que  buscam experiências sensoriais de qualidade, o que ampliou a oferta da cachaça no segmento premium.

Mesmo ainda padecendo de muitas mazelas, tais como estigmas e preconceitos seculares, representações setoriais ainda frágeis, informalidade crescente inaceitável, há o que se celebrar no setor da cachaça. 

Na atualidade, a cachaça destaca-se por seu elevado padrão de qualidade, alcançado por empresas formais, que investem em controle continuado, tecnologia e pessoal qualificado. Os resultados notoriamente positivos da cachaça em concursos internacionais renomados são a prova cabal que ela se encontra no patamar dos melhores destilados do mundo. 

 Mas não basta a elevada qualidade, pois uma categoria de bebida, seja ela standard ou premium, somente se constitui com investimentos em comunicação consistente e marketing altamente qualificado. Tais investimentos requerem da categoria e do setor, como um todo, mais do que recursos financeiros disponíveis, mas primordialmente um elevado grau de maturidade e estratégias estruturantes.

O setor ainda não alcançou esse rumo e ponto de equilíbrio. Não haverá um ente dessa cadeia setorial ou produtiva capaz de encontrar isoladamente a repercussão pretendida. Bom senso, clareza de objetivos, metas e métodos para se alcançar resultados exitosos e capacidade de diálogo são elementos para a construção de consensos sólidos para inserir a cachaça no universo de destilados mundialmente relevantes, como whisky, tequila, vodca e gim. 

Como fazer isso? Quais os atores dessa construção? São eles capazes de dialogar e encontrar caminhos exitosos? Essas interrogações informam o estágio em que a Cachaça se encontra na atualidade e as respostas estão por vir.

*Kátia Alves Espírito Santo é produtora da Cachaça da Quinta, vice-presidente da Apacerj, diretora do Sindbebi  e membro do Conselho Deliberativo do Ibrac

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4 Comentários

  1. Estou aqui me deleitando diante estes belíssimo texto! Parabéns Kátia, ponderada, sensata e assertiva como sempre… por isto vc é a minha primeira e eterna inspiraçao no mundo da cachaça!

  2. Excelente resumo da trajetória da Cachaça e seus desafios contemporâneos na busca do seu fortalecimento.
    Mais do que nunca os problemas estão claros, em destaque estigmas seculares acentuadamente preconceituosos, assim como entre outros uma informalidade crescente. Será que conseguiremos evitar as enganações costumeiras, onde afirmações endeusando ou demonizando apenas limitam a busca de soluções necessárias para o avanço da Cachaça no espaço intensamente disputado entre as demais categorias de destilados? São textos como este que permitem juntar o conhecimento objetivo dos fatos com a necessária honestidade de propósito para avançarmos.

    Parabéns Katia!!!!

  3. Luiza Almeida Braga

    Katia , vc tem desempenhado um papel muito importante nesse nosso universo cheio de regionalismos , de falta de unidade e de espírito de cooperação . Vc foi a nossa maior ajuda e a nossa guia na produção da Pindorama ! Quando ganhamos o nosso primeiro concurso internacional ( o International Spirits Award ) , vc foi a primeira pessoa a quem escrevi . Vc é parte da nossa caminhada e seremos sempre gratos a tudo q vc nos
    ensinou

  4. Amigos e Parceiros,
    Desculpo-me pela demora em agradecer os generosos comentários.
    Vocês fazem parte da minha trajetória, enriquecendo-a continuadamente, pois são interlocutores diferenciados e pessoas muito especiais. O importante é que estamos trabalhando para a construção de uma imagem positiva da cachaça, promovendo um olhar respeitoso e de admiração para com a cachaça, como produtores de cachaça, apreciadores da cachaça e como atuantes do setor da cachaça, com experiência, conhecimento acumulado e responsabilidade.
    Minha estima e admiração por vocês, amigos e parceiros.
    PS: Aproveito para agradecer o Dirley, que me convidou e publicou o texto no Devotos da Cachaça, espaço consagrado em prol da cachaça.

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