fbpx
Inicio / Destaques / Caipirinha vira, oficialmente, patrimônio – mas enfrenta obstáculos

Caipirinha vira, oficialmente, patrimônio – mas enfrenta obstáculos

Por Dirley Fernandes

A Lei se resume a dois artigos, sob o número 8576 e publicada no Diário Oficial do Estado do Rio na quinta-feira (24/10): “Art. 1º: Fica declarada como patrimônio cultural, histórico e imaterial do Estado do Rio de Janeiro a Caipirinha, bebida-símbolo do Brasil. Art; 2º: Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação”.

Com isso, a Caipirinha, glorioso drinque brasileiro de fama mundial, ganhou novo status no Estado do Rio, por iniciativa do deputado estadual Paulo Ramos (PDT) e sanção do governador Wilson Witzel.

É boa notícia. A caipirinha já tinha status de “bebida típica do Brasil” por legislação federal (Decreto 6871), na qual é caracterizada por ter “graduação alcoólica de quinze a trinta e seis por cento em volume, a vinte graus Celsius, elaborada com cachaça, limão e açúcar”.

E, agora, nosso coquetel nacional galga um patamar a mais no estado que recebeu 1,3 milhão de turistas estrangeiros no ano passado.

A caipirinha muito merece a distinção, já que é a nossa solitária representante entre as cerca de 80 preparações da carta de drinques da International Bartenders Association, na qual pontifica na lista dos ‘Clássicos Contemporâneos’.

É ainda o 42º coquetel mais pedido do planeta, de acordo com levantamento da respeitada Drinks International, tendo subido dois pontos em 2018 em relação ao ano anterior – o que a revista atribui à maior oferta de cachaça de qualidade mundo afora.

Origem da Caipirinha

Como costuma acontecer sempre que se vai celebrar a Caipirinha, surgem histórias mal contadas sobre a origem do drinque, que já teve até recente celebração de centenário quando, na verdade, é a forma contemporânea de uma receita de algumas centenas, talvez mais de milhar de anos.

No Oriente, de onde o limão é originário, a fruta era misturada a álcool e açúcar muitos séculos antes de o Brasil surgir no mapa. Na Índia, onde, segundo descobertas arqueológicas recentes, se destilava álcool desde 150 D.C,  a receita levava chá e especiarias.

Nos Açores, a poncha de aguardente de cana, açúcar e limão era corrente desde o início do século XIX, pelo menos. E ainda é bebida, com açúcar ou com mel, ainda hoje – geralmente mexida com o famoso misturador apelidado de ‘caralhinho’.

O uso de beberagens com limão, açúcar ou mel e outros ingredientes está relatada em muitos livros antigos, como o ‘The American Dispensatory’, de 1830, falando em limonada adicionada de um destilado (citando arak, conhaque e rum) como um poderoso tônico para os convalescentes.

A receita atual ganhou fama no início do século XX – ao que tudo indica, a partir da cidade de São Paulo – com o advento do gelo industrial. ‘Caipira’ era já no início do século XIX termo corrente com que os paulistanos tratavam, de forma pejorativa, os habitantes da província, que se vestiam de forma rústica e tinham modos menos refinados, segundo anotara August de Saint Hilaire.

A pinga com limão era corrente nas biroscas paulistanas, mas a ‘caipirinha’ ganhou algum glamour com a geração modernista de Tarsila, Oswald e Mário de Andrade, três grandes devotos da cachaça que bebiam em bares que já dispunham da modernidade do gelo.

Mas, fazendo um salto, há duas questões atravancam o caminho da caipirinha.

Caipirinha livre

A primeira é a contrafação: o uso da vodca prioritariamente no lugar da cachaça. Esse costume bárbaro não é mais majoritário em bares de primeira linha – há pesquisas de algumas empresas que demonstram isso, mas são para uso interno.

Mas, de um modo geral, incluindo todo o mercado de bares, ainda se pede menos caipirinha com cachaça do que com vodca – uma variante que, de certa forma, é “oficial”, já que consta na IBA, sob o nome ‘caipiroska’, no próprio verbete dedicado à Caipirinha.

Não é crime, claro, preparar caipiroskas, mas não faz muito sentido – salvo se lembrarmos do velho ‘complexo de vira-lata’ – que bares brasileiros usem preferencialmente vodca – uma bebida, de modo geral, mais neutra – do que cachaça, bebida que tem mais estrutura, mais complexidade de aromas e sabores e mais lastro cultural na nossa terra para preparar um drinque nacional. Mas isso, ao longo do tempo, vai seguir mudando.

Outro perigo é um certo cachaxiitismo que se ampara na lei que cita os ingredientes da caipirinha para dizer que aquilo que lá está é a única forma possível de preparar o drinque, qual seja com limão, açúcar, cachaça e gelo.

Ora, qual é o sentido em tolher a criatividade, em condenar o uso de outras frutas no preparo da caipirinha e estreitar as suas possibilidades de sabor? “Aí é caipifruta”, me disse outro dia um grande bartender.

Onde está escrito isso?

Não há problema algum – e isso é constrangedoramente óbvio –, em se aproveitar nossa natureza cultural e ecologicamente tropical para preparar diversas variantes de Caipirinha. Essas variantes terão, claro que sempre ser grafadas com sobrenome. Se você serve – eu já vi – uma caipirinha com hibisco e morango, chamando apenas de “Caipirinha”, aí haverá um erro e, querendo ou não, um falseamento e uma ilegalidade.

Mas se você chama a receita de “Caipirinha de morango e hibisco” e ela é gostosa, refrescante e com cachaça, seja feliz e deixe que os cachaxiitas se debatam em purismos que em nada contribuem.

Não vou nem prosseguir falando dos que dizem que Caipirinha é só com cachaça branca. Para amadores, talvez. Profissionais saberão lidar com as dificuldades da mistura de frutas com cachaças com madeira. Se duvidam, vão experimentar as que o Leandro Batista faz com jequitibá rosa e muito mais…

Deixa para outro post esse tema, que agora vou tomar uma caipirinha de maracujá para brindar ao patrimônio imaterial do Rio de Janeiro.

Leia mais sobre coquetelaria com cachaça aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Devotos em seu e-mail

Pular para a barra de ferramentas Sair