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O adeus a Erwin Weimann, mestre da cachaça

Por Dirley Fernandes

O mundo da cachaça está de luto com a perda do químico especializado em destilados Erwin Weimann, na noite de segunda-feira. Erwin faleceu pouco antes de completar 75 anos, o que aconteceria no próximo mês, e era um dos maiores conhecedores dos processos de produção e dos muitos aromas e sabores da cachaça.

Ele defendeu a bebida e a superioridade da cana-de-açúcar como matéria-prima para destilados apaixonadamente até o seu estado de saúde, que vinha se agravando nos últimos meses, o impedisse.

Master blender com o nome ligado a diversas cachaças, como a Da Tulha e a Yaguara, Erwin era autor do livro ‘Cachaça, a bebida brasileira’.

Ele também trabalhou nos anos 1970 no desenvolvimento do etanol como combustível, mas sua paixão era a cachaça.

Erwin tinha em casa uma espécie de “laboratório”, com equipamentos de análise e fileiras de pequenos barris em diferentes madeiras – do araribá ao sassafrás, passando por diversos carvalhos, que ele preferia – recheados com cachaças. Ali, no terceiro andar da casa na Mooca, na qual vivia com a esposa Sandra e os filhos, realizava suas alquimias.

Erwin era membro da Cúpula da Cachaça, à qual se juntou já em nosso segundo encontro, após eleito por aclamação, e exercia no grupo de especialistas o papel de Mestre Yoda, sempre se posicionando pausadamente e sem afetação e recolocando as discussões nos devidos trilhos.

Os demais cúpulos – entre eles esse redator que vos escreve – o escutavam com a deferência devida a um mestre que vinha de muitas batalhas. Por outro lado, ele não desperdiçava a menor oportunidade para uma gozação sobre os companheiros, sempre com o sotaque carregado da Mooca.

Era otimista com o futuro da cachaça e seríssimo em suas propostas, lastreadas por quatro décadas de experiência e nas viagens que realizou para conhecer os aspectos da produção e do mercado de destilados como o whisky, o rum e a tequila – viagens nas quais, quase sempre tinha a companhia protetora e bem-humorada da mulher Sandra.

Em sua última colaboração com a ‘Cachaça em Revista’, publicação da Cúpula da Cachaça, entregou com atraso, já por conta do agravamento de seu estado, um artigo impecável, no qual destilava inteligência ao listar oportunidades para aumentar a lucratividade dos produtores de cachaça.

“a) aproveitamento das fibras de bagaço de cana sobrantes no processo de fabricação da cachaça para substituição de outras fibras como o xaxim para fabricação de vasos, cultura de cogumelos ou fabricação de papel com baixo impacto ambiental;

b) aproveitamento das dornas de fermentação e alambiques na entressafra da cana para fabricação de rum com o melaço disponível no mercado, diminuindo significativamente a sazonalidade de produção;

c) Aproveitamento dos alambiques para fabricação de outros destilados, utilizando nossa base alcoólica de alta qualidade, normal ou orgânica;

d) Oportunidade de divulgação das madeiras nacionais para envelhecimento de Cachaça, devido à utilização no exterior somente o carvalho, seja europeu ou americano.

No que consideramos importante a ser discutido e acordado pelo setor listamos:

a) União de todo o setor produtivo e promocional da Cachaça para informar o mercado interno e o externo acerca da qualidade de nosso destilado;

b) Racionalização dos impostos incidentes no setor, que muitas vezes inviabilizam a comercialização pelos pequenos produtores, segmento que emprega diretamente mais que o dobro da indústria automobilística e sem nenhum benefício fiscal.”

O conhecimento, a sabedoria e a humanidade de Erwin farão muita falta à cachaça e a seus familiares e amigos, que, no entanto, podem se consolar sabendo que o grande mestre soube viver lidando com o que gosta e sempre gozando do respeito e do carinho dos companheiros de jornada.

Certa feita, estávamos esse editor e outros amigos – todos da lida com a cachaça – na casa de Erwin, diante do forno a lenha do qual saíram ao longo da noite pizzas com massas perfeitas, feitas pela mão do especialista em fermentação.

Uma das últimas fornadas, no entanto, quando já tínhamos dado conta de uma Anísio Santiago e de algumas outras cachaças, na hora de viajar do forno para a mesa, foi ao chão.

Mas não poderíamos deixar esse evento malfazejo entristecer no nosso pizzaiolo – não sendo esse pizzaiolo o Erwin. Recolhemos a pizza do chão com presteza, cortamo-la e comemos, batizando-a com um nome de cachaça: “Soleira”.

Um brinde, meu amigo Erwin!

Clique aqui para ler o artigo de Erwin Weimann na Cachaça em Revista deste ano e nas edições anteriores.

Leia mais notícias sobre cachaça.

 

6 Comentários

  1. Belíssimo texto, que trata muito a serenidade e sabedoria do nosso Mestre…. o Céu com certeza está em festa por receber este Mestre e nós aqui do mundo da Cachaça um pouco mais tristes…É o ciclo da viva!

  2. Belíssimo texto mesmo! Fica a saudade e os ensinamentos 🙏👏👏

  3. José Otávio de Carvalho Lopes

    Texto primoroso dedicado a uma pessoa que com certeza está
    no céu lendo com a ponderação que lhe é peculiar

  4. Lindo texto, uma homenagem a quem merece só elogios e aplausos. Um mestre supremo 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

  5. Maria Fernanda Weimann

    Que orgulho ler isso a respeito do meu querido pai. Não só no trabalho mas em família, sempre especial. Obrigada, Fernanda Weimann

  6. Parabéns pelo texto e pela justa homenagem! Um brinde!

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