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Porto do Vianna 54% e Pardin 50%: conheça 2 aguardentes recém-nascidas e com muita saúde

Por Dirley Fernandes

Sim, vamos falar de aguardentes, especificamente da Porto do Vianna 54%, recém saída do alambique, e da Aguardente Tradicional Pardin, que se prepara para chegar às prateleiras em novembro. A primeira, inclusive, conquistou medalha de prata no Spirits Selection 2019, o que fala bem dos juízes do certame. Mas, antes, permitam-me uma digressão…

Ah, o colar de pérolas que se forma em volta do cálice nas aguardentes mais fortes… Por um tempo, ali por meados da década, essa visão havia se tornado rara. Desde o final da década anterior, os ditames do mercado vinham fazendo com que as cachaças antigas adotassem teores alcoólicos mais contidos, entre 38% e 40%, quando muito um 42%, enquanto só surgiam novas cachaças também nessa faixa.

Nada contra! É um movimento natural de busca de um consumidor pouco acostumado aos impactos dos destilados, maioria absoluta entre o público potencial da cachaça, e uma turma que precisa ser conquistada.

O problema é esse movimento de ondas que leva todo mundo para o mesmo lado. Não é exclusivo da cachaça. Basta ver a inflação de hamburguerias brotando nas esquinas onde antes se multiplicavam temakerias, paleterias, barbearias…

Enfim, com todo mundo correndo para o mesmo lado, o nicho dos apreciadores de cachaças com teor alcoólico mais alto ficou desatendido. Essa turma estocava Claudionor, poupava os goles da sua Século XVIII ou entrava no especial para adquirir uma Havana.

Mais eis que os espertíssimos produtores da Mil Montes perceberam o problema e lançaram a bela Mil Montes Bruta, com seus 48%. Depois, viria a Magnífica Bica do Alambique e a Gouveia Brasil apresentaria a primorosa Gouveia Brasil 44. A pujança estava de volta e não na forma de defeito – como aparece em algumas fichas de degustação, o que é uma traição imerecida para substantivo tão digno – mas de especificidade.

Vem mais por aí… Pelo menos três marcas – uma nordestina, uma mineira e uma fluminense – preparam novos produtos nessa linha. Uma delas, podemos adiantar, é a Tapinuã dos Reis, de Silva Jardim (RJ). E é um primor.

São cachaças que vão encontrar seu público. Ele será restrito, mas merece ser atendido. O mundo da cachaça não pode prescindir de variedade na oferta – essa é a grande virtude da categoria e o sustentáculo de muitas marcas.

A chegada de novas e qualificadas aguardentes ao mercado é uma espécie de radicalização desse movimento. E atende também às necessidades de bartenders que querem compor coquetéis mais estruturados.

E agora vamos às aguardentes.

No cálice, a Aguardente Porto do Vianna 54% forma um belo colar de grandes e brilhantes pérolas… A última bolha corre pelo copo e só espoca após 48 segundos bem contados. A untuosidade é a esperada, com grossas colunas descendo cálice abaixo com delicioso vagar.

O odor fresco e adocicado que surge após se vencer a pancada de álcool é extremamente convidativo para o devoto mais experimentado. Nada aqui lembra acetona, metal, remédio… O que se revela é a maestria da fermentação e alambicagem comandada pelo mestre Armando Del Bianco nos altos de Turvolândia, onde se engarrafam cachaças, licores, aguardentes e paixão. Os aromas cítricos abrem espaço para um dulçor que recende a marrom glacê.

(Saiba mais sobre o master blender Armando Del Bianco nesse post.)

Na boca, não há ardência excessiva. A acidez é domada. O que ressalta é o registro refrescante, que remete a tangerina. O final é até relativamente rápido, deixando a língua algo dormente com o álcool e um toque de mentolado e de longínquo e agradável amargor no ar.

Algumas cachaças mais fortes prescindem do equilíbrio em nome de um punch mais violento. Não é o caso dessa aguardente, que se presta a ser bebida pura e certamente comporá expressivas, densas e generosas caipirinhas.

Bem mais domada é a Aguardente Tradicional Pardin (50% de teor alcoólico), produzida em Natividade da Serra (SP) pelo estudiosíssimo cachaceiro Marcelo Pardin. Apesar da densidade, quase licorosidade, é aguardente mais próxima de uma cachaça tradicional e um sonho para bartenders em busca de generosidade e estrutura. Os aromas herbais são bem evidentes, não precisam ser mais buscados, como no caso da mais misteriosa Porto do Vianna.

A Pardin é sincera, clara e fácil de beber. Sorvê-la é ser conduzido a uma fazenda onde se serve garapa temperada com umas gotas de limão. Seu sabor de doçura perfeitamente manejada remete a melado, a pé de moleque, a doce de coco. É aguardente absolutamente reconfortante.

Em tempo: há mais aguardentes no mercado do que imaginamos nos grandes centros. São cerca de 600 registradas, com forte presença da produção nordestina.

Em tempo II: degustei as aguardentes, com alguma largueza, na noite passada. Depois, jantei acompanhado de um bom tannat e bebi dois copos de uma cerveja catarinense enquanto falava sobre o dia com a devota aqui de casa. Acordei levíssimo e pronto para escrever essa resenha. Foi prova definitiva. Não temam essas aguardentes. Qualidade só faz bem à cabeça.

Leiam sobre outras maravilhas da produção brasileira na seção Cachaças de A a Z, a mais lida do Devotos.

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