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Cachaça e samba: harmonia nota dez há cem anos

Por Dirley Fernandes

O samba está fazendo cem anos (na verdade, é mais velho, porém se celebra a data da gravação de Pelo telefone, composição assinada por Donga e Mauro de Almeida, gravada no fim de 1916 e estrondoso sucesso no carnaval de 1917). Em homenagem à data magna, convido-vos a um passeio pelas relações harmoniosas entre essas duas marcas da identidade brasileira: cachaça e samba.

Nos anos 1920, a Praça Onze era o território do samba e do carnaval popular do Rio de Janeiro. Ali, os malandros se encontravam para rodas de samba e de pernada (uma luta ritmada pelas palmas e pela música, com alguma semelhança à capoeira). Na casa do Tenente Couto, num canto da famosa praça, um garoto nascido no morro da Mangueira, Carlos Moreira de Castro, ganhou o apelido que carregaria até o fim da vida: Carlos Cachaça.

O rapaz tinha 17 anos, bebia feito gente grande e já era bamba. Logo depois, já um responsável funcionário da Rede Ferroviária Federal, ele fundaria a Estação Primeira de Mangueira.

Hoje, Carlos Cachaça é lembrado por  sambas de antologia, como Alvorada, Não quero mais amar a ninguém e Ciência e Arte (os três em parceria com o amigo Cartola, que preferia conhaque; o primeiro também com Hermínio Bello de Carvalho, grande devoto da cachaça, e o segundo também com Zé da Zilda, cuja dedicação às libações é testemunhada por seu maior sucesso, Saca-rolha).

A cachaça era a bebida que animava o samba desde o seu berço, com as garrafas divididas pelos negros vindos da Bahia e do Vale do Paraíba que se misturavam aos afrodescendentes na região do Estácio e Cidade Nova para criar uma nova cultura. Imagine o tanto que não se bebia de cachaça – e de aluá  – nas festas de Tia Ciata, na Praça Onze, que, não raramente, duravam três dias? E na Festa da Penha, onde um inspirado compositor chegou a derrotar Sinhô, o “Rei do Samba” num duelo de improvisos em 1921. Seu apelido? Caninha!

Paulo da Portela, que nos anos 1920 já liderava os sambistas de Oswaldo Cruz, dá um número, no samba em que descreve os preparativos para um pagode. O Quitandeiro (que ganharia segunda parte de Monarco décadas mais tarde) fala em impressionantes 30 litros.

Quitandeiro, leva cheiro e tomate

Na casa do Chocolate , que hoje vai ter macarrão

Prepara a barriga macacada, que a bóia tá enfezada

E o pagode fica bom, fica bom, fica bom, fica bom …

Chega só 30 litros de Uca, para fechar a butuca

Desses nego beberrão…

No carnaval, é claro, cachaça e samba comandavam a animação dos foliões que se dirigiam para a avenida (Rio Branco), como mostra Assis Valente, no samba que, gravado por Carmen Miranda, foi o maior sucesso o carnaval de 1937:

Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí…

Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu parati….

Mas para ser considerado um bom folião, que honre a camisa com cachaça e samba, era preciso ser bom bebedor, como prova o sucesso Camisa amarela, de Ary Barroso, sucesso de 1939 na gravação de Aracy de Almeida:

Mais tarde o encontrei num café zurrapa

No Largo da Lapa

Folião de raça

Bebendo o quinto copo de cachaça

Isso não é chalaça!

Ary Barroso também é parceiro do grande Luis Peixoto, que cita a cachaça numa obra-prima de 1934, Na batucada da vida, imortalizada por Carmen Miranda:

Depois do meu batismo de fumaça

Mamei um litro e meio de cachaça

Do campo à mesa (e ao excesso), a cachaça foi tema de milhares de sambas, muitos deles primorosos, como o “samba rural” de Wilson Moreira e Zeca Pagodinho, gravado pelo segundo, em 1993.

Moenda velha

No engenho novo

Bota o caldo de cana

Pinga boa pr’esse povo

Cachaça pura, aguardente

Bebida da nossa gente

Ê,ê, ê, ê, ê

Bebida da nossa gente

Mestre Wilson Moreira, aliás, que na segunda parte desse samba, diz “A boa cachaça saindo da cana/ Desceu da moenda/ Esqueço a maldade/ Dessa gente profana” usa a bebida brasileira como símbolo de pureza, do sentimento que não é conspurcado por interesses mesquinhos, como em Formiga miúda:

Êta, samba rude pra cantar na praça

Entre uma atitude e outra cachaça

Quem tiver virtude que puxe o refrão

Antes que ele mude de opinião

Já o portelense Monarco lembrou a presença do marafo na religiosidade popular num clássico das rodas de samba composto em parceria com Betinho da Balança (Falso pai de santo).

No terreiro do seu Tiriri
Se errar o coro come
Tiriri levou homem

Lá pro fundo do quintal
Apanhou uma garrafa de marafo
Misturou com azeite de dendê
Um pedaço de fumo e pimenta
Botou na panela pra ferver
E mandou o crioulo ajoelhar
E beber tudo aquilo de uma vez

Constantemente, a cachaça aparece nos sambas como a chance de consolação em momentos de dificuldades. Um exemplo é o clássico i (Francis Hime/Chico Buarque). No samba-choro, o letrista redige, em 1976, durante a ditadura militar, uma carta ao dramaturgo Augusto Boal, então exilado em Lisboa, falando de forma cifrada sobre como a “coisa aqui tá preta” (pouca segura ainda para um retorno diante da perseguição e da censura) e dizendo como faz para suportar a situação.

Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Chico, aliás, dois anos depois do Meu caro amigo, quando a “abertura lenta, gradual e segura” de Geisel deixava entrever alguma luz no fim do túnel, fez o que era impossível um pouco antes: levou os amigos pra conversar. Eles chegaram “com uma sede de anteontem”. Em Feijoada completa, ele dá a receita mais sucinta e genial de caipirinha jamais escrita:

Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão
E vamos botar água no feijão

Mas, claro, há aqueles que exageram na devoção. Fundamentalismo nunca é bom. Paulinho da Viola, no samba reflexivo Coisas do mundo, minha nega, lembra um desses personagens que deixa de ser devoto para virar cachaceiro, o seu Bento:

Esqueceu do compromisso que assumiu com a mulher

Não chegar de madrugada

E não beber mais cachaça

Ela fez até promessa

Pagou e se arrependeu

Cantei um samba pra ele que sorriu e adormeceu

Em registro mais bem-humorado, o elegantíssimo imperiano Wilson das Neves adverte o beberrão que “tem aumento de glicose e risco de cirrose” em Pra quem sempre bebe muito. A música é do próprio Das Neves e a letra é do magnífico Paulo César Pinheiro.

Beiço rosa, pé inchado

E vermelho é o seu olhar

De cachaça, rum, traçado

Genebra, quinado e conhaque Dubar

Que mulher nenhuma aguenta

Esse embalo segurar

Qualquer dia o tempo esquenta

Um dia, a rua atenta

Ela vai te abandonar

Mas, para começar a encerrar, a grande glorificação da cachaça no mundo do samba aconteceu em 1977, quando o Salgueiro desfilou com um enredo do grande devoto da cachaça Fernando Pamplona chamado Do cauim ao efó, moça branca, branquinha, ficando numa honrosa quarta colocação. O samba, de autoria de Geraldo Babão e Renato de Verdade, e com toda a irreverência característica da escola da Tijuca, é espetacular e seria regravado com grande sucesso pelo grupo Os Originais do Samba. Ah, o samba salgueirense também encerra o documentário Devotos da Cachaça (2010), assinado por esse redator. Assista aqui.

A moça branca é amiga,
Não há quem diga que não tem valor,
Só por ser tão boa
Vive assim à toa, sem querer se impor.
Ela dá coragem, dá vantagem,
Dá inspiração
E não admite
Falta de apetite numa refeição

No Salgueiro tem,
Tem gente que bebe pra esquecer ê-ê
Tem gente que sabe beber e comer ê-ê-ê-ê

Churrasco no Sul,
Buchada no Norte,
Tutu à mineira,
Com pinga da forte.

Comendo Efó,
Jerimum com jabá,
Feijoada, peixada
Ou o bom vatapá, 

Tem que ter cachaça,
Ela não pode faltar…
… E depois quindim,
E doce de leite com amendoim,

 

A saideira de cachaça e samba vai com Moacyr Luz – hoje mais devotado ao vinho do que à cachaça da qual ele sempre foi grande admirador – no qual ele homenageia a marvada, inclusive citando algumas marcas na letra. O samba está no disco Cachaça dá samba, de Alfredo del Penho e Pedro Paulo Malta.

 Rainha

Pode ser uma cachaça

E no reino da manguaça

também usa uma coroa

Um colar que rodeando toda a taça

Se desmancha quando passa

arranhando o céu da boca

Cludionor, Beija-Flor, Providência

dia a minha experiência,

deve-se beber aos poucos

(…)

Por isso, Magnífica pessoa

Boazinha é muito boa

Mas a vida anda às tontas

Coqueiro pra levar a vida à toa

Lua cheia, me perdoa

Hoje estou de malas prontas

Um comentário

  1. Mais uma vez um golaço Dirley. Faço aqui a lembrança do “Cachaça Mecânica” do Tijucano Erasmo Carlos que consegue o feito de começar em samba e terminar em Rock Salseado. Não tão antológico quantos os sambas citados mas que aponta para uma outra safra de Sambas e Rocks.Parabéns!

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