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Congresso Brasileiro da Cachaça lança Carta de Vitória, caminho para o futuro da cachaça

Por Dirley Fernandes

O Congresso Brasileiro da Cachaça, que se realizou na quinta e sexta-feira última (05 e 06/09), em paralelo ao Salão de Negócios da Cachaça, foi, sem medo de exagero, um marco para o setor, apontando caminhos que foram cristalizados na ‘Carta de Vitória’, aprovada no encerramento do encontro.

O testemunho mais contundente do sucesso do Congresso foi prestado pela ex-presidente da Confraria de Cachaça Copo Furado, Cláudia Fernandes, durante a sessão de encerramento do evento.

“Tenho participado há mais de 20 anos de debates, simpósios e congressos que têm a cachaça como tema. Já ouvi muita gente falando sobre as questões da cachaça. Nenhum, no entanto. atingiu a profundidade desse, que não se limitou a questões culturais ou de produção, mas discutiu o futuro da cachaça também como negócio, com muito realismo”.

As palestras se estenderam por dois dias, com mais de 25 palestrantes das mais diferentes formações, atuações e abordagens se revezando no microfone e discutindo um amplo espectro de temas relativos ao setor – desde questões de produção, passando por distribuição, varejo, coquetelaria, comunicação, marketing, raízes históricas do preconceito, diferenciações de produtos etc…

Em breve, o conteúdo será publicado em versão resumida, para que todos os que não puderam comparecer tenham alguma ideia do que foi debatido. Mas a Carta de Vitória, documento elaborado com o sentido duplo de refletir os debates e apontar compromissos e nortes para o setor de cachaça nos próximos anos, espelha bem os indicativos encontrados nos debates.

A Carta, aprovada por aclamação, é um verdadeiro mapa do caminho que precisa ser seguido, em iniciativas individuais e coletivas, para levar a Cachaça a vencer obstáculos e ocupar mais espaços no mercado de destilados.

A seguir, alguns trechos do texto, que foi co-redigido por desse editor, com comentários.

É mais do que hora de o setor de cachaça encarar os seus reais desafios, sem temores e sem versões triunfalistas e falaciosas.”

Esse trecho reflete a necessidade e a intenção manifestada pelos congressistas de o mercado se posicione com mais realismo.

A Cachaça tem um papel cultural e econômico destacado na sociedade brasileira. No entanto, o espaço que ela ocupa, seja no imaginário ou seja em números de mercado, não reflete essa importância.

Partir desse pressuposto, como a Carta de Vitória faz, é fundamental para que se trace um diagnóstico correto e se estabeleçam as medidas necessárias para um avanço.

Renato Fracino, Gilberto Freyre Neto, Bruno Videira, Dirley Fernandes e Jerônimo Villas Boas

A produção de cachaça atingiu níveis de excelência. Não deixamos nada a dever para qualquer dos outros destilados globais. No entanto, ainda precisamos transpor barreiras construídas por muitos séculos e dificuldades inerentes à nossa própria formação como sociedade.
Já avançamos muito na tarefa diuturna de combater o preconceito contra o nosso destilado nacional. Porém, o preconceito, em certos setores, ainda é uma realidade, como foi levantado por muitos neste Congresso.”

Ao longo dos debates, vários foram os testemunhos da rejeição – algumas vezes aberta, outras, velada – que ainda existe, em alguns setores da sociedade, inclusive a grande mídia, em relação à Cachaça.

Foi debatido como o preconceito se construiu historicamente, o que é fundamental para se descobrir como quebrá-lo. Apesar do inegável avanço, os congressistas concordaram que é necessário muito mais ações, dos mais variados formatos, para miná-lo até o ponto em que ele seja apenas residual. No entanto, a pior forma de abordagem seria negar a existência deste preconceito.

A Cachaça foi “oficializada” pelo Estado como bebida nacional muito recentemente. E o próprio termo “cachaça” ainda era rejeitado, até por alguns produtores, nos anos 1990. O trabalho conjunto para vencer os estigmas ligados à Cachaça é tarefa individual e coletiva, um combate a ser travado a cada dia.

Alexandre Santos, Cauré Portugal, José Otávio Carvalho Lopes, Maria das Graças Cardoso, Aline Bortoletto e Rogélio Brandão

“Informação, conhecimento e compreensão do que é o novo público da Cachaça são a base para a construção de um novo momento. Nesse sentido, é fundamental reconhecer o papel das mulheres na cadeia de produção e comercialização da Cachaça, bem como enquanto consumidoras.”

Esse trecho da carta reafirma conhecimento e informação como as ferramentas preferenciais para a ampliação do público da Cachaça. Quanto mais se divulgue a riqueza histórica da cachaça, as especificidades das regiões de produção, os detalhes da produção, a herança das famílias e o alto nível dos padrões de qualidade, mais rica e sedutora será a experiência do consumo da cachaça.

A referência às mulheres vêm da constatação inequívoca do aumento do interesse desse público pela cachaça, o que leva à necessidade de ajustes nas estratégias de comunicação de todos os produtores. Um dos sinais desse avanço é a parcela de leitores do Devotos da Cachaça do gênero feminino. Três anos atrás, eram 36%; hoje, são 42%.

Outra mudança a ser levada em conta é a redução da faixa etária do consumo. Novamente, esse é um fator que demanda reajustes na comunicação dos produtos e até no planejamento de novos produtos.

É urgente trazer a cachaça para o século XXI. Não há mais espaço para amadorismo em nosso setor. É necessário que a tecnologia disponível seja utilizada para levar adiante a tradição de qualidade de 500 anos do mais antigo destilado das Américas.

O professor Leandro Marelli deu à sua palestra no Congresso o título “Cachaça – Tradição e Modernidade”. A ideia foi mostrar que a tecnologia pode trabalhar a serviço das tradições de qualidade do nosso destilado. Para além da porteira, o mesmo serve: o setor precisa abraçar estratégias de comunicação e marketing no mesmo nível das utilizadas pelos outros grandes destilados globais, não apenas com foco no produto, como também no cliente.

A disponibilidade de recursos é um limitador, mas se custos fundamentais para o sucesso, como degustações e promoção na ponta do varejo, não estiverem dentro do planejamento da marca – e, em boa parte das vezes, não estão –, a competitividade fica muito reduzida.

Para a cachaça, isso é ainda mais dramático. Eventualmente, um produtor com baixo nível de profissionalismo contamina o mercado com práticas insustentáveis, que dificultam o trabalho daqueles que batalham pela evolução de suas marcas e do setor como um todo.

Nossa tarefa é entregar uma experiência ao consumidor. Isso engloba investir esforços e recursos também fora da porteira. A coquetelaria é uma via que se abre para a ampliação do público consumidor de cachaça. Um mundo de sabores e possibilidades!”

Além da reafirmação da importância do trabalho fora da porteira, esse trecho afirma a coquetelaria com cachaça como uma porta de entrada hoje fundamental para o mundo da cachaça, assim como é para todos os demais destilados globais. A coquetelaria brasileira cada vez se desenvolve e se especializa mais, em busca de uma identidade brasileira. A Cachaça tem tudo para se beneficiar desse processo e cabe ao setor investir esforços para intensificá-lo.

O Cachaça Experience, que aconteceu em paralelo ao Congresso Brasileiro da Cachaça comprovou que a organização do evento soube mensurar essa oportunidade que se abre.

(Os debates) foram ricos e indicam rumos para o avanço do setor. No entanto, é preciso muito mais diálogo, busca de consensos e atuação coletiva, envolvendo todas as entidades representativas, para removermos os entraves do nosso mercado.”

Esse trecho fala da necessidade de uma continuidade do clima de diálogo que marcou os dois dias do Congresso, nos quais os debates se estenderam para bem além do recinto do Congresso. O evento, aliás, teve a participação de representantes de dezenas de entidades, entre as quais o Ibrac (Instituto Brasileiro da Cachaça), como partícipe dos debates, a Anpaq (Associação Nacional dos Produtores e Integrantes da Cadeia Produtiva e de Valor da Cachaça de Alambique), como coorganizadora, e o Sebrae, como apoiador.

Uma costura para a qual teve importância fundamental o produtor Adão Celia, da cachaça Princesa Isabel, de Linhares (ES), o idealizador do Congresso Brasileiro da Cachaça e principal responsável pela complexa costura institucional.

Unidos, construiremos as respostas e atingiremos aquele que é nosso objetivo em comum: ampliar o público da cachaça, conquistar mais e mais corações para o destilado nacional brasileiro.”

A carta termina com um chamado para a atuação coletiva e individual em nome de um objetivo básico: a ampliação do público consumidor. Parece singelo, mas o significado dessa convocação é mais profundo: propõe que não se mire apenas na competição pelo mercado consumidor restrito que temos atualmente. Essa competição, claro, vai continuar a existir, mas, a par disso, é necessário esforço coletivo na direção de fazer crescer o bolo. O chamamento é para que todos compreendam que, em um ambiente de negócios em que marcas entrantes vão ampliar muito a oferta, fazer crescer a demanda é uma questão de sobrevivência.

Como disse Fernando Silveira, do Sebrae, em sua palestra, coopetir – dividir conhecimentos, práticas, custos e responsabilidades em busca de um avanço coletivo para a categoria – pode ser uma das chaves do sucesso no mercado da cachaça

Há espaço para ampliar o público da cachaça. Os novos devotos podem ser conquistados entre os que temem a pujança dos destilados, entre os que consomem outros destilados na crença errônea de que são superiores à cachaça e entre os que são consumidores e consumidoras de coquetéis e que estarão abertos à cachaça se ela for adotada por seus bartenders preferidos.

Adão Celia lê a Carta de Vitória, no encerramento do Congresso

Mas, para isso, é preciso adotar as estratégias corretas em todas as áreas. A Carta de Vitória é uma boa ferramenta a indicar os caminhos para esse fim. Na Paraíba, sede do II Congresso Nacional da Cachaça, em 2021, talvez já possamos mensurar os resultados.

Segue a íntegra do documento.

CARTA DE VITÓRIA

É mais do que hora de o setor de cachaça encarar os seus reais desafios, sem temores e sem versões triunfalistas e falaciosas.

A produção de cachaça atingiu níveis de excelência. Não deixamos nada a dever para qualquer dos outros destilados globais. No entanto, ainda precisamos transpor barreiras construídas por muitos séculos e dificuldades inerentes à nossa própria formação como sociedade.

Já avançamos muito na tarefa diuturna de combater o preconceito contra o nosso destilado nacional. Porém, o preconceito, em certos setores, ainda é uma realidade, como foi levantado por muitos neste Congresso.

Os caminhos para atingirmos um novo patamar de valorização da Cachaça são muitos e complexos. Mas informação, conhecimento e compreensão do que é o novo público da Cachaça são a base para a construção de um novo momento. Nesse sentido, é fundamental reconhecer o papel das mulheres na cadeia de produção e comercialização da Cachaça, bem como enquanto consumidoras.

É urgente trazer a cachaça para o século XXI. Não há mais espaço para amadorismo em nosso setor. É necessário que a tecnologia disponível seja utilizada para levar adiante a tradição de qualidade de 500 anos do mais antigo destilado das Américas.

Profissionalizar o nosso setor é uma responsabilidade e um compromisso que toda a cadeia produtiva da cachaça deve assumir. Isso se traduz desde a atividade no campo, passando pelo alambique e chegando aos distribuidores e à ponta do varejo.

Produzir cachaça de alta qualidade é uma difícil missão. Mas é preciso ainda mais: nossa tarefa é entregar uma experiência ao consumidor. Isso engloba investir esforços e recursos também fora da porteira. A coquetelaria é uma via que se abre para a ampliação do público consumidor de cachaça. Um mundo de sabores e possibilidades!

São indispensáveis o respeito e a compreensão dos papéis de cada ator na cadeia da cachaça, do campo ao copo. Uma relação de parceria entre distribuidores e produtores é imprescindível para que a cachaça chegue à mesa do cliente e tenhamos um mercado saudável.

Os debates do I CONGRESSO BRASILEIRO DA CACHAÇA, realizado na cidade de Vitória-ES, nos dias 05 e 06 de setembro de 2019, foram ricos e indicam rumos para o avanço do setor. No entanto, é preciso muito mais diálogo, busca de consensos e atuação coletiva, envolvendo todas as entidades representativas, para removermos os entraves do nosso mercado.

Um passo importante foi dado e muitos outros virão. Unidos, construiremos as respostas e atingiremos aquele que é nosso objetivo em comum: ampliar o público da cachaça, conquistar mais e mais corações para o destilado nacional brasileiro.

Viva a Cachaça!

06 de setembro de 2019

Leia mais sobre o Congresso Brasileiro da Cachaça aqui.

 

3 Comentários

  1. Parabéns , bela síntese, realmente foi um grande passo dado pela cachaça. Um brinde.

  2. Hamilton Medeiros

    Sensacional visão de tudo que aconteceu nesse maravilhoso evento.

  3. Quando entrar em vigor o acordo de “livre comércio” com a Europa, a cachaça irá perder MUITO com isso. Principalmente quando na entrada de whiskies sem imposto no Brasil. A verdade é que existe um classe média nesse país que sempre foi uma traidora da pátria. Não esperem deles um aumento no consumo de cachaça, pois ele vão beber whisky.
    No mais, o tratamento não será reciproco. A Europa adota medidas de vigilância sanitária muito mais rigorosas do que o Brasil. A maior parte dos produtores aqui não vão conseguir exportar cachaça para lá.

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