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Fala de Bolsonaro vai de encontro ao trabalho pela valorização da Cachaça

Por Dirley Fernandes

Em resposta à declaração do ex-presidente Lula, em entrevista gravada na Polícia Federal, em Curitiba, onde está preso, de que o país está sendo governado por “um bando de malucos”, o presidente Jair Bolsonaro disparou que pelo menos não era “um bando de cachaceiros”.

A fala, claro, repercutiu mal. Para além do embate político dos dois rivais, a declaração do presidente vai contra um trabalho árduo que todo o setor de cachaças empreende diuturnamente contra a estigmatização do consumo de cachaça, ainda visto de forma negativa por uma parcela da sociedade.

Foto: Maurício Motta

Se a intenção de Bolsonaro era se referir a um eventual abuso do uso de álcool pelo seu adversário político poderia ter usado termos como “bêbados”, “alcoólicos”, “ébrios”… Ao escolher “cachaceiro”, palavra que lança sobre um produto específico o peso dos problemas do abuso do álcool, Bolsonaro alimenta preconceitos arraigados que são um grande obstáculo ao desenvolvimento do nobre destilado nacional, símbolo e orgulho do país.

Melhor fez o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, na semana passada, que presenteou o ministro da Justiça, Sérgio Moro, com uma cesta de produtos mineiros, incluindo a Cachaça. Zema demonstrou consciência do valor econômico e simbólico da Cachaça, um produto com cinco séculos de história no Brasil e qualidades equivalentes às de quaisquer dos mais nobres destilados do planeta.

Se a cachaça mineira pode representar Minas e refletir os valores da gente das Alterosas, o mesmo vale para a Cachaça produzida em alto nível em tantos estados brasileiros.

A Cachaça precisa e deve ser prestigiada e promovida por todos os mandatários brasileiros. A valorização da Cachaça é questão de Estado; está acima de brigas políticas. Nosso destilado tem potencial para funcionar como cartão de visitas do Brasil em todo o mundo. Para ficar em apenas um exemplo, agiu melhor o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que a serviu no brinde oficial pelos 500 anos do Descobrimento do Brasil, perante delegações estrangeiras.

O poder de influência, de abrir portas, criar imagem positiva que os produtos de um determinado país têm – o cinema americano é o maior exemplo – é conhecido como ‘soft power’. Alguns presidentes brasileiros souberam como exercer esse tipo de poder em benefício do país e a cachaça foi constantemente ferramenta para isso.

Alguém seria capaz de imaginar o presidente francês dizendo que seus adversários são “um bando de bebedores de champagne”? Ou um líder conservador britânico acusando os trabalhistas de serem “um bando de bebedores de scotch”? Britânicos, franceses, russos, mexicanos… orgulham-se e valorizam as suas bebidas nacionais. É exemplo que deveríamos seguir.

Embora os números do setor careçam de consolidação, estima-se que a cadeia produtiva da Cachaça no Brasil empregue diretamente pelo menos 500 mil pessoas. São cerca de 1,5 mil produtores legalizados que arcam com uma cunha tributária elevadíssima. A Cachaça é exportada para cerca de 60 países. É um setor importante para a economia nacional e com potencial para crescer muito, empregar mais e gerar mais recursos. Para isso, a valorização da cachaça em termos culturais é chave fundamental.

A nova gestão do Ministério da Agricultura tem sido receptiva aos produtores de Cachaça, pelo menos no que tange à abertura de canais de diálogo. Torçamos para que esse bom diálogo se sobreponha às “caneladas”, como o capitão gosta de se referir às suas incontinências verbais.

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14 Comentários

  1. ROSA MARIA ALVARES RIBEIRO

    Sou eleitora de Bolsonaro e lamento profundamente o mau uso do termo. Minha família é produtora de cachaça em Goiás, com várias marcas reconhecidas inclusive internacionalmente.Espero que a imagem de Lula seja dissociada do nosso produto.

  2. “Canelada” é o escambau! O que o presidente fez foi vazar mais um pouco a sua represa de discriminações e preconceitos. Na semana anterior, na mesma linha de impropriedades, ele fez apologia do turismo sexual – desde que os turistas buscassem mulheres brasileiras em vez de gays. Fato que gerou uma réplica do governo do estado do Maranhão. Assumir essas manifestações da autoridade como “canelada” e ainda sugerir alternativas faz parecer um endosso do Devotos da Cachaça. Quem votou nisso deve estar vendo com clareza o resultado e o significado do seu voto.

  3. É triste e lamentável que temos um mandatário do povo que não sabe respeitar as culturas específica do seu próprio país,.

  4. Lamentável, no mínimo. Devemos explicar melhor a estas pessoas que a cachaça é patrimônio nacional e merece ser reverenciada. Parabéns pelo artigo.

  5. Não se pode esperar outra coisa de um governante eleito e monitorado por religiosos fundamentalistas. Não adianta passar pano. Com esse governo a cachaça terá dias sombrios pela frente

  6. Parabéns pelos apontamentos. Em tempos de excessos me parece que o álcool já não é tão venenoso quanto as próprias palavras.
    Já diz a canção e trova popular: ” …falador passa mal…”

  7. Adeylza Andrade Souza Matos

    Nós do setor lamentamos muito esse acontecido, temos que nos unir na valorização da cachaça, produto nacional de grande aceitação fora do Brasil, somos brasileiros, produtores de cachaça e temos o dever de promover o que temos de melhor em nossos produtos e nossa cultura.

  8. Márcio Roberto Oliveira

    Uma pena.
    anos pra construir marcas, credibilidade nacional e internacional, e a palavra de um representante da nação denegrindo todo trabalho. Sem dúvida, — nem todo eleitor do senhor Bolsonaro são evangélicos, e com certeza grande parte gosta da nossa cachaça brasileira, seja pura ou para um aperitivo. Este senhor tem que estudar muito o Brasil, e ter muitas aulas com os seus assessores de comunicação para falar em público.

  9. Uma correção. Na língua portuguesa, se a afirmação tem valores contrários aos esforços pela valorização da cachaça, o título está incorreto. A frase do presidente não vai “ao encontro” e sim, “vai contra”, como disserta bem o texto.

    • Dirley Fernandes
      Dirley Fernandes

      Luiz, agradecemos seu e-mail, mas a frase está correta. O termo usado no título é “de encontro”, que tem o sentido de “ir contra”.

  10. Estão polemizando demais. A fala do Presidente nao Tem nada a ver com o produtores e sim de um preso condenado por corrupção, acerca da bebida e nada mais que isso.

  11. Sou eleitor e defensor das propostas de Bolsonaro, mas, de fato ele poderia ter poupado a CACHAÇA nesta resposta. Como dito antes, poderia muito bem ter se referido a ALCOÓLATRAS, EMBRIAGADOS, ETC.
    Sugiro fazer chegar até ele (Bolsonaro), este artigo, muito bem elaborado, por sinal, principalmente quando se refere a outros países produtores de bebidas alcoólicas, que jamais menosprezariam seus produtos.

  12. Mas quanto mimimi. Acredito que qualquer um tenha entendido o termo usado pelo Bolsonaro. Ele nunca teria desvalorizado o trabalho de quem faz cachaça ou é apreciador dela. É muita vontade de pautar contra o Presidente mesmo.

  13. São esses vícios da nossa linguagem cultural, que muitos não dão importância, mas que reforçam o preconceito sobre vários aspectos, a cachaça é uma delas, no meu dia a dia tento corrigir quando ouço esses termos, de forma polida, quando se tira verba da educação, aumenta a distância da solução desses problemas, são caminhos difíceis de se percorrer.

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