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A Revolta da Cachaça de Pitangui (MG)

Por Dirley Fernandes

A Revolta da Cachaça que sacudiu o Rio de Janeiro no século XVII é a mais conhecida (já falamos dela aqui), mas as tentativas de proibir a produção e a comercialização da cachaça já levaram os brasileiros às armas em outras regiões. Um dos casos de maior gravidade ocorreu em Pitangui, hoje Região Metropolitana de Belo Horizonte, nos idos de 1719 e ficou conhecido como Revolta da Cachaça de Pitangui ou Rebelião da Pinga.

As restrições ao consumo de cachaça são moeda corrente no Brasil desde 1649, quando a Coroa portuguesa impôs a primeira proibição ao vinho de mel e à cachaça em terras brasileiras por conta do “grande prejuízo” na Fazenda Real.

Quando as Minas Gerais começaram a ser povoadas, na última década do século XVII, logo os bandeirantes e tropeiros levaram para as terras novas os alambiques. Naquele momento, a produção de cachaça em toda a província do Rio de Janeiro vivia seu auge, e centenas de engenhocas se espalhavam por todas as regiões. São Paulo também produzia a bebida em abundância.

Assim, no início do século XVIII, Minas já havia sido tomada pelos engenhos de açúcar e aguardente, que produziam bebidas muito mais baratas do que as que vinham do Reino e ajudavam a enfrentar o duro trabalho das lavras do ouro. A cachaça era considerada produto de primeira necessidade na ração dos escravos.

O problema é que, para a Coroa, não interessava muito que a mão-de-obra escrava – que era escassa para as necessidades – se desviasse do garimpo. E muito menos que uma bebida produzida localmente e que, raramente, recolhia impostos, prosperasse. Assim, em 1715, o governador Bras Balthazar da Silveira proibiu a construção de novos engenhos na região das Minas.

A lei, obviamente, não foi cumprida, assim como não seria a ordem de 1743. “Os prejuízos dessas fábricas são evidentes, porque os negros embebedam-se, e fazem mil distúrbios, e os escravos que trabalham nela podiam empregar-se na extração do ouro. (…) Na Capitania de Minas somente se deve trabalhar nas lavras e na cultura das terras que produzem os gêneros alimentícios para o sustento dos povos. As agoas ardentes de Cana devem ir para Minas das capitanias de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde não há ouro. É certo que deste modo hão de ser mais caras, mas assim mesmo é conveniente para que os negros não possam beber tanta”, aconselha o livro “Instrução para o governo da capitania de Minas Gerais”, do desembargador José João Teixeira Coelho, publicado no Porto, em 1780.

Bem se vê que os governadores mineiros não seguiram a sua “instrução”.

A Revolta em Pitangui se deu como resposta a uma medida também das mais drásticas: uma espécie de estatização temporária da produção de cachaça nas terras da então Vila.

Naquele momento, Pitangui, situada entre a região das Minas e o sertão (as terras representadas nos mapas pelo vazio gráfico) tinha granjeado a fama de produzir as melhores cachaças daquelas terras. “Do termo desta vila sai imensidade de carregações de toucinho, embarcadas em canoas que descem pelo Rio Pará e vão sair no São Francisco e aportar em várias povoações que se acham nas margens deste mesmo rio, onde por avultado preço o vendem a negociantes. As aguardentes de cana, que se fazem nas vizinhanças de Pitangui, são as mais nomeadas em todas as Minas e a de que usam a maior parte de seus povoadores”, escreveu o militar José Joaquim da Rocha (FONSECA, 2011, p. 359), citado no blog Daqui de Pitanguy.

No entanto, em 1719, o ainda lugarejo não dispunha de prédios públicos essenciais para uma Vila portuguesa: uma boa igreja, uma casa para a Câmara que também funcionasse como Cadeia e uma casa para alojar o governador, quando por ali ele passasse.

Assim, o capitão-mor João Lobo de Macedo fez passar na Câmara um “estanco” de toda a produção cachaceira local para financiar as obras que Pitangui precisava. Com isso, só a Coroa tinha autorização de comerciar a aguardente.

Ora, ali em Pitangui, à época, viviam alguns dos bandeirantes mais calejados das Minas, curtidos em difíceis condições e acostumados ao combate. Tinham feito sua própria fazenda crescer na região, tinham estabelecido uma indústria próspera em torno da cana-de-açúcar. Não iriam agora deixar tudo para Dom João V, o Magnânimo, que àquela altura, enchia as burras com o ouro brasileiro.escravo mineração

Organizou-se a resistência, chefiada por Domingos Rodrigues do Prado, bandeirante paulista, inimigo das autoridades lusitanas de Sabará e o principal desbravador daquelas terras. Logo, o capitão Macedo foi escorraçado da vila. O presidente da Câmara, equivalente a prefeito na época e que tinha aprovado o ‘estanco’, acabou morto durante o levante.

Era um desaforo impossível de ser aceito pelo orgulhoso Conde de Assumar, que governava as Minas desde 1717, um fidalgo português clássico e devotado a seu rei. Até porque Pitangui já lhe dava trabalho há muito. Era devedora do quinto – a taxa escorchante de 20% sobre o ouro produzido nas Minas com que Portugal enriquecia.

A tropa enviada à região, conta o historiador Raimundo da Silva Rabello, reuniu 500 homens, certamente uma das maiores já vista nas Minas até aquele momento. A ordem era prender os líderes do motim, a fim de que eles fossem julgados pelo crime de lesa-majestade, e promover o sequestro de bens no valor da dívida dos pitanguienses.

Os mineradores e produtores de cachaça, no entanto, foram aguerridos. Conseguiram juntar 400 pessoas na defesa do direito de produzir a aguardente. A batalha se deu ás margens do rio São João, no atual município de Conceição do Pará.

Com mais e melhores armas, os portugueses saíram vencedores, ainda que com baixas expressivas.
Prado fugiu e, de um esconderijo, soube que todos os seus bens, que não eram poucos, haviam sido confiscados.

Alguns contam que o governador teria mandado fazer uma espécie de ‘judas’ de Prado e enforcado em praça pública. O simbolismo era de que, ainda que vivo, como cidadão português, o bandeirante estava morto. Sua descendência foi declarada infame até a terceira geração.

O curioso é que Rodrigues do Prado respondeu, enforcando, ele também, um “judas” do governador, que, um ano depois de abafar a revolta em Pitangui, acabaria voltando para Portugal, após enfrentar outra rebelião, dessa vez em Vila Rica.

Quanto à produção de cachaça em Pitangui, depois do período de turbulências, foi retomada sem maiores danos. Já Assumar mostrou-se exasperado, numa carta ao rei, em 1720, com a insubordinação daqueles mineiros.  “A terra parece que evapora tumultos; a água exala motins; o ouro toca desaforos; destilam liberdades os ares; vomitam insolências as nuvens; influem desordem os astros; o clima é tumba da paz e berço da rebelião”.

O que era uma diatribe contra os mineiros, hoje soa como elogio e nos faz erguer um brinde: ‘Salve a cachaça e viva as Minas Gerais!’.

Nosso colunista Manoel Agostinho Lima Novo passou por Pitangui recentemente. Leia aqui o que ele viu por lá.

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