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A garrafa da cachaça, a escolha fundamental – cada uma conta uma história

Escolher a melhor embalagem para a cachaça não é apenas “seduzir o consumidor”, embora essa seja uma necessidade imperiosa num mercado excessivamente fragmentado, com algumas lojas que simplesmente amontoam garrafas de forma desordenada nas prateleiras, sem oferecer a mais remota curadoria para o consumidor não iniciado.

A embalagem, em especial, a garrafa da cachaça, precisa contar uma história sobre aquele produto. Por outro lado, as garrafas também testemunham o momento de evolução do mercado. Desde a garrafa âmbar, aquela de cerveja, passando pelo modelo ‘Cachaças do Brasil’, tão utilizado na década passada, até as garrafas premiadas internacionalmente de marcas como a Gouveia Brasil, a evolução vem sendo constante, mas não sem percalços. Aqui ou acolá vemos garrafas de custo nem tão elevado funcionando como pretexto para aumentar preços de forma desmesurada. São exceções, mas convém ressaltar que não é exatamente a isso que se refere o termo “posicionamento de marca”.

Agora pela manhã, num grupo de whatsapp – sim, há muita vida inteligente em vários desses grupos, em meio ao excesso de falação e aos videozinhos impertinentes –, li um ‘textão’ do Rafael Guimarães, da loja DrinkIT e do site Cachaça Express sobre embalagem da cachaça. Como tudo é pertinente e – entendam a importância desse último fator – vem de quem tem a experiência direta com o consumidor, achei que seria de interesse mais amplo republicá-lo aqui.

Assinaria embaixo de cada linha, em especial aquela do “menos é mais” quando se refere à comunicação visual e textual, conceito extremamente difícil de explicar aos produtores.

Aproveitem!havana

“Foi-se o tempo no qual embalagem tinha apenas a função de armazenar. Na nova era do individualismo contemporâneo, a função da embalagem é, ao mesmo tempo, efêmera e extremamente complexa. Efêmera pois sua percepção dura pouco, alguns segundos se dermos sorte, daí sua complexidade. Como em meio a outras tantas, em um pequeno espaço de tempo, seduzir?”

“Na era da informação, caos visual, período de atenção reduzido e tendência a super-marketização dos produtos, precisamos usar de muita criatividade para podermos seduzir nossos clientes no ponto de venda. Como mostrar num pequeno espaço de tempo a história, o folclore, identidade da marca, detalhes técnicos? Como colocar sua identidade visual de tal forma que, em meros segundos, se realize uma conquista? Uma venda?”

Várias gerações de garrafas, lado a lado
Várias gerações de garrafas, lado a lado. Foto: Paladar Estadão

“Comecemos pelo começo. A garrafa. Hoje existem opções quase inumeráveis de vasilhames no mercado. Verdade, o custo é um fator primordial e quase sempre principal limitante em se escolher uma bela garrafa. Mas aqui cometem-se pecados imperdoáveis. Moça bonita em vestido feio. Cachaça fantástica em garrafa ultrapassada ou feia. Claro que gosto cada um tem o seu, por isso aqui temos que abrir exceção para a tradição. Há marcas que estão intimamente ligadas às tradicionais garrafas de cerveja, nada de errado. Acho até legal… Não consigo imaginar Havana, Canarinha… em garrafa transparente. Muito esquisito! Mas, para as novas marcas, há total liberdade criativa (mesmo que às vezes não financeira) para inovar. Vamos dar a Ela a roupagem que merece, à altura de sua importância e qualidade. Digo que, no PDV, é sem duvida a primeira coisa que o cliente vê, muito antes do rótulo ou do líquido. A garrafa! Gente de sobra pode auxiliar a escolher uma bela roupa para seu elixir que levou tanto tempo para ficar pronto.”

“Depois de vestir, temos que decorar para exaltar as qualidades e informar ao máximo o cliente. Aqui, temos um conflito muitas vezes ignorado pelos produtores. Sem dúvida, no quesito visual, menos é mais. O baixo tempo de atenção do consumidor leva à necessidade de se prezar pela minimalização visual. O mínimo legal tem lá suas exigências de teor alcoólico, ml, etc. mas é o principal lugar que teremos para mostrar a que viemos. Um bom nome é essencial. A madeira, acho também essencial. Premium, Extra Premium ou idade… importante também. O nome do produtor, telefone, e-mail, etc? Aí não, isso pode ficar escondidinho no contrarrótulo, junto com talvez outras informações técnicas. Acho muito válida a tendência de se dar cada vez mais informações para o cliente. História, folclore, notas de degustação… Tudo que ajudará a solidificar a sedução uma vez que o cliente levou o produto. Nesse quesito, os folhetinhos amarrados ao gargalo sempre fazem sucesso. Em resumo, minimizar na fachada e enriquecer nas costas ou no folheto. QR code no contrarrótulo levando ao site da marca é sempre uma boa ideia também. Aqui, sem dúvida, vale a pena ter às mãos um bom profissional de design especialista em branding de garrafas.”gouveia

“Para encerrar, o invólucro. Aonde os custos permitem, uma caixa de papelão ou fibrolata são sempre garantias de percepção de maior valor para o consumidor. Sacos de juta ou veludo fazem excelentes presentes. Falando em presentes, devemos sempre ter em mente que grande parte dos produtos vendidos nos PDVs físicos são presentes para alguém. Uma segunda embalagem então, seja ela caixa, lata ou saco, é garantia de preferência dos consumidores.”

“Moral da história: tradição é base para se construir inovação. O tempo da sedução é curto e o namoro não dura quase nem um segundo. O nosso patrimônio etílico merece sempre ser apresentado da forma mais sofisticada (ou tradicional, se for o caso) e profissional possível.”

“Sem querer me repetir, mas tradição ou artesanal não pode ser sinônimo de amadorismo. Sucesso garantido para um bom produto bem vestido. Nada de super-marketização. Seduza pela simplicidade e garanta o casamento pela honestidade das informações. Não tem erro! Se é boa e bonita nóis vende e/ou bebe com muito prazer, obrigado!”

“Rafael Guimarães de Sá, MSc, PhD é um amante em tempo integral da boa Cachaça. Entre uma dose e outra, nas horas vagas, ganha a vida como Diretor Executivo da CachacaExpress.com.br, primeiro e mais inovador e-commerce de Cachaças do Mundo e da DrinkIT Beer & Liquor Store, duas das mais lindas lojas de Cachaças Artesanais do Brasil, localizadas no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte (Confins).”

Recado dado. Leia mais artigos sobre o mercado de cachaças aqui.

Por Dirley Fernandes

4 Comentários

  1. Excelente artigo.
    Estou justamente estudando o rótulo da Tapinuã dos Reis.
    Pretendo enviar este texto para a pessoa que está ajudando.

    • Olá Paulo. Obrigado! Fico feliz que tenha gostado. Fique a vontade para enviar o texto para seu designer. Gaste o tempo que for necessário nesse processo da identidade visual. É muito melhor gastar o tempo e os recursos na concepção do que tentar mudar a marca depois de estabelecida no mercado. A embalagem deve, na minha opinião, balancear história/tradição com modernidade/inovação. Quais pontos você quer mostrar ao público sobre sua história, seu folclore? Quais pontos quer enfatizar sobre o seu produto, suas vantagens, seus pontos positivos? É sem dúvida um processo de busca interna (na organização e no proprietário) para saber qual a identidade que melhor representará seu produto. Um grande abraço e boa sorte com a Tapinuã dos Reis!

  2. Muito interessante mas, por que cachaças como Havana, Canarinha e outras tantas, podem ser apresentadas em embalagens simples sem nenhum apelo de marketing? A resposta é muito simples, a qualidade destas cachaças é o seu maior cartão de visitas, as cachaças que não tem qualidade ou são comuns, precisam conquistar o publico mal informado que compra aparências. A garrafa deve respeitar o consumidor, mostrando o conteúdo (uma das características que compõem a analise sensorial, “visual”) e informar, de forma clara e honesta todas suas características. Sou a favor da evolução do setor produtivo da cachaça mas, que a qualidade não seja “mascarada” pelas embalagens.

    • Olá Renato. Cachaças como Havana e Canarinha, como tantas outras, mantém sua embalagem original (garrafa âmbar de cerveja) por uma questão de tradição e manutenção do visual já consagrado das marcas. Será que elas desrespeitam o consumidor por serem de cor âmbar e não mostrar o líquido? Claro que não. Embalagem bem feita, moderna, em linha com o desejo e bolso dos consumidores não é necessariamente máscara de produtos ruins. Claro, podem haver exceções e se levar gato por lebre, mas com a quantidade de informações disponíveis ao consumidor, estas marcas “aventureiras” acabam não durando muito. A embalagem serve como o primeiro contato, primeira indicação, do esmero e cuidado com que o produtor decidiu apresentar seu produto, não mascarar seus defeitos. Não querendo discordar, mas sim complementar seu argumento: Se há, em sua opnião, produtos de melhor ou pior qualidade, qual o significado do termo “qualidade” em Cachaças? Significa um produto constante, feito nos mais rígidos padrões de controle industrial? Ou produtos com um conjunto sensorial que lhe agrada? E se não agrada a outros? Produtos que não fazem mal, não dão ressaca? Qual o conjunto de definições apropriadas? Creio que o certo seríamos pensar em “produto adequado”: adequado a meu bolso, meu paladar, minha vontade naquela hora. As caninhas industriais de R$ 10 são feitas sob rigoroso processo industrial altamente controlado. São então de qualidade? Sem dúvida… Agradam a todos os gostos? Talvez não. Então a boa Cachaça é aquela que você gosta, independente se vem em uma garrafa de cerveja ou uma garrafa de cristal Francês.

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