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Vai começar o Ano da Caipirinha. Mas Temer não sabe o que é isso

Por Dirley Fernandes

Vai começar o ano da caipirinha, no qual, segundo algumas versões, o coquetel nacional completa 100 anos. Mestre Derivan já programou para o dia 22 próximo o I Concurso da Caipirinha Paulista, no Mercadão de São Paulo, sobre o qual o Devotos dará detalhes mais tarde.

Por agora, é necessário, no entanto, reafirmar, ainda que brevemente, um fato: a caipirinha, nosso drinque nacional, é tão importante simbolicamente para a cultura brasileira que tem sua receita protegida por lei. Está lá no § 4º da Lei 8451/2003: “Caipirinha é a bebida típica brasileira, com graduação alcoólica de quinze a trinta e seis por cento em volume, a vinte graus Celsius, obtida exclusivamente com Cachaça, acrescida de limão e açúcar”.

Ora, em seu périplo televisivo para defender seu governo, Michel Temer, atual ocupante da presidência da República, esteve no programa notívago de Amaury Jr.

Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

 

Entre outras perguntas com mais ou menos pertinência (“Foquei no homem Temer, disse Amaury à revista Veja), o apresentador perguntou: “O presidente gosta de bebida alcóolica?”, ao que foi retrucado: “Sim, uma boa caipirinha, seja de cachaça ou vodca”.

O gosto do “homem Temer” está fora de discussão. Mas é preciso ressalvar ao presidente: caipirinha não se faz com vodca! A versão do coquetel brasileiro que usa vodca como base tem alguns nomes possíveis: caipivodca, caipriosca, caipiorraioqueosparta. Mas caipirinha não é!

Atentem que esse devoto não considera sacrilégio misturar açúcar, limão e vodca. Ou já estaria condenado pelo argumento inverso por já ter bebido versões de Moscow Mule  com cachaça. Antropófagos como somos, não podemos reclamar, por coerência, da deglutição alheia.

É certo que a densidade da mistura e os toques de sabor e aroma de cana típicos da cachaça são parte da experiência de uma caipirinha feita nas regras da arte – coisa mais rara de se achar do que nossa vã filosofia às vezes imagina. Mas quem preferir outros sabores de destilados, ou a ausência de sabores, está no seu direito. Está indo, sensorialmente, pela senda errada. Mas tem todo o direito de fazê-lo.

De forma semelhante, são interessantes e eventualmente até bem-vindas as substituições do limão por outras frutas, como faz melhor do que ninguém o mestre Leandro Batista, que inaugura casa nova em Guarulhos nos próximos dias – falaremos, igualmente, mais tarde sobre o tema. Mas a bebida resultante será “caipirinha de uva”, “caipirinha de mirtilo com hortelã”. Cada uma delas deliciosa, mas nunca, de fato e de direito, apenas “Caipirinha”.

Caipirinha é “exclusivamente”, como frisado na lei, cachaça, açúcar, limão e gelo – como foi expresso na genial receita brasileirissimamente ditada por Chico Buarque em Feijoada completa: “Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão… E vamos botar água no feijão!“.

O  X do problema é a proteção do nome, da marca, do símbolo. A caipirinha, assim como a cachaça, deve ser tratada como bandeira, como ícone da nossa terra aqui dentro e alhures. É uma ponta de lança da revelação do melhor de nossa identidade no mundo todo e nas praias de Alagoas. Esse foi o espírito que presidiu a criação da lei que protegeu a denominação.

Quando o “jurista” Temer fala “caipirinha, seja de cachaça ou vodca”, além de ir de encontro ao interesse do país, desrespeita a lei.

E quem mais deveria respeitar a lei de um país do que o ocupante da presidência da República? Bom, estamos falando de Michel Temer, que, como se sabe, só não é réu exatamente por sua prerrogativa de ocupar a cadeira de presidente… Tem que manter isso, viu?

 

Um comentário

  1. PETER CARL ARMSTRONG

    Lamento dizer que nosso colega cúpulo e mestre barman Leandro Batista esta tanto e quanto errado que interino Presidente Temer,,,ou seja “Caipirinha de uva..” e outras bebidas elaboradas com Cachaça são “Coqueteis” ou “batidas” . Tenho certeza pq fui membro da comissão da
    ABRABE (Associação Brasileira de Fabricantes de bebidas) , que elaborou o texto e levou o pleito, através do então Ministério da Agricultura, dos fabricantes e engarrafadores de cachaça para o então Presidente eleito Fernando Henrique Cardoso assinar a lei na celebração dos 500 anos deste maravilhoso país em comemoração na cidade de Porto Seguro, Bahia.

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