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Devotos da cachaça no Museu do Rum, em Havana

Por Dirley Fernandes

Em Havana (Cuba), onde estivemos na semana passada, a cada esquina se pode tomar um mojito ou um daiquiri, os drinques locais, assim como em qualquer quadra do Rio de Janeiro se encontra uma caipirinha. A diferença é que ninguém vai te oferecer um mojito com vodca ou, o horror! o horror!, com saquê, como acontece por aqui – apesar de, na ilha, haver produção local da ‘aguinha’ dos russos.

As garrafas do Havana Club e de outros runs cubanos (Varadero, Legendario, Santiago de Cuba, entre os muitos provados)  estão sobre todos os balcões, apresentando a locais e visitantes aquilo que é peculiar à ilha. É como se faz. O lugar que melhor representa essa compreensão da importância de valorizar o produto tipicamente cubano é o Museo del Ron, no impressionante bairro Ciudad Vieja, o mais emblemático da capital dos cubanos.

O museu fica em uma grande casa ao estilo colonial castelhano, com suas alas voltadas para um pátio interno fresco e imponente, onde se tomam bons drinques e os turistas fazem fotos com as negras cubanas, de trajes coloridos e enormes charutões. Anexo ao prédio, um bar no melhor estilo habanero, com grandes balcões de madeira escura e vitrines espelhadas, recendendo aos anos 1950.

Na chegada, pagam-se salgados 7 cucs (uns R$ 22) para ter acesso a todas as alas do museu. Com o recibo, no entanto, vem a informação: a visita é guiada. O tour em inglês estava prestes a começar, enquanto a versão em espanhol teria sua vez daí a vinte minutos. Boa!

museo del ron
Reprodução de uma destilaria de rum dos anos 1930

Em inglês perfeito e bem pausado, a guia deu início ao passeio demonstrando amplo conhecimento do tema que tratava e respondendo com precisão às perguntas com que eu pontuava a sua exposição.

Não sei se o distinto leitor está familiarizado com o fato de que a produção de rum da região do Caribe teve início com a ida para a região de alambiqueiros judeus que trabalhavam em Pernambuco nos tempos das invasões holandesas. Temerosos da perseguição da Coroa portuguesa após a retomada do território, em 1654, esses especialistas na destilação da cana-de-açúcar migraram para o Caribe e para a América do Norte e tentaram continuar a exercer o seu ofício. Portanto, o rum caribenho é um filho dileto do nosso destilado. Mas, claro que essa precedência da cachaça não foi comentada durante o tour pelo Museo del Ron.

O ‘ron ligero‘, como é conhecido o tipo de rum produzido na ilha de Cuba, é produto relativamente recente, estabelecido na década de 1860 na região de Santiago pelo legendário espanhol Facundo Bacardi. A destilação em colunas, a filtragem em carvão, a blendagem de runs de várias idades e o envelhecimento em velhos barris de carvalho europeu são as características básicas do rum cubano desde esse início e até hoje.

A matéria-prima é o melaço de cana, resultado da concentração do caldo. A vantagem desse material em relação ao caldo de cana cru, hoje a única matéria-prima usada e legalmente estabelecida para a produção de cachaça, é a durabilidade. A desvantagem, a perda do frescor. A aguardiente cubana, base do rum, é um produto de alta concentração de álcool (cerca de 75%) e só serve como base para o añejamiento, o manejo do envelhecimento que nunca é menor do que um ano e que vai gerar a bebida chamada de rum.

Cuba conta com cerca de 80 destilarias em seu pequeno território. A maior delas, claro, a Havana Club, responsável por 23 milhões de litros anuais, distribuídos entre seus diversos rótulos, e que é a dona do Museu do Rum.

Na exposição, é possível ver moendas do século XIX e, numa maquete impressionantemente bem realizada, o funcionamento de uma grande destilaria dos anos 1930, auge da produção local.

Velhas colunas de destilação, uma área de barris e um espaço onde o processo de blendagem é exemplificado compõem o espaço, que permite um passeio muito bem resolvido pela história do rum cubano.

Ao fim da visita, a degustação, num espaço clássico onde os diferentes rótulos e blends feitos pelos chamados ‘maestros de ron cubano’. Esses maestros são basicamente, master blenders, porém, mais do que isso, eles são considerados os guardiões dos sabores e tradições do destilado nacional, O posto é importante e ocupado atualmente por apenas oito senhores.museo del ron 1

Após a degustação, claro, a lojinha, com preços semelhantes aos praticados no mercado em geral.

Um belíssimo espaço o Museu do Rum, de um capricho que, no caso da cachaça, só pode ser comparável ao de Salinas e, de alguma forma, ao da Ypióca, em Maranguape (CE). Ainda é pouco para um destilado que tem tanta história.

Um comentário

  1. Excelente artigo sobre o Rum com esclarecedoras referências à Cachaça. Muito bem apontado o começo do Rum como tendo originado em Pernambuco. Realmente nossa Cachaça, por sua amplitude de ser o Brasil na garrafa, deveria ter mais espaços dedicados como os dois realmente expressivos, como o museu de Salinas e o da Ypioca. Ainda tenho esperança do lindo projeto do Museo da Cachaça no Rio de Janeiro. Um pequeno detalhe para corrigir: melaço não é o caldo concentrado, mas uma ingrediente inferior resultante do processo de produção de acucar. Justamente aquele final do processo, aquela fração requentada que não granula em açúcar.O caldo concentrado, também usado para Rums mais finos, conhecido como xarope ou mel. Só um detalhe. Parabéns pelo artigo muito esclarecedor!!!

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