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Os segredos da Gouveia Brasil – uma visita ao alambique

Por Dirley Fernandes

Roberto Brasil, produtor das cachaças Gouveia Brasil e Porto do Vianna, gosta de repetir uma frase: “A gente não quer fazer cachaça, a gente quer fazer as pessoas felizes”. A frase tem um jeitão de slogan publicitário, mas começa a fazer sentido quando se bebe a Gouveia Extra Premium, um complexo blend de jequitibá, carvalho americano e umburana, uma cachaça, de fato, única no mercado.

Mas a tal frase ganha um sentido novo, mais amplo e profundo, no momento em que se sobe o morro da fazenda centenária e se chega ao local onde nascem a Gouveia e a Porto do Vianna. De um lado, se vê o rio Sapucaí no seu rumo calmo Minas abaixo, quase a repetir a famosa frase de Otto Lara Resende: “Minas está onde sempre esteve”.

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Virando os olhos, se avistam as instalações erguidas do nada especialmente para abrigar a produção da Gouveia Brasil. A conclusão é uma só: estamos, obviamente, diante de um trabalho de paixão. “Eu tinha que fazer isso aqui, nesse lugar”, diz o mineiro, apontando para o chão da terra, legada pelos avós, onde hoje ele produz bebidas com métodos tradicionais e alto padrão de excelência.

Enquanto se festejava o Dia de Zumbi, esse redator subiu às Minas para conhecer a casa da Cachaça Gouveia Brasil, em Turvolândia Ali, eu e Anna fomos recebidos por Brasil, por Celso Lemos, diretor de Marketing do Grupo, e por Armando del Bianco, o mestre dos magos, o homem que cuida da produção. Os bartenders e amigos Mestre Derivan e Daniel Júlio eram as outras companhias luxuosas na visita. 

A marca Gouveia Brasil é recente no mercado (nesse post falamos sobre ela). No entanto, em seus quatro anos de vida, coleciona admiradores e conquistas. A principal delas foi ter sido a a única cachaça a receber uma medalha Grand Gold na edição 2016 do respeitado Spirits Selection, o concurso de destilados mais respeitado do mundo. Para se ter uma noção do peso dessa premiação, basta lembrar que, na edição deste ano, nenhum destilado brasileiro obteve essa láurea.

O posicionamento – termo de que tanto gostam os marqueteiros – da marca é diferenciado: a Gouveia Brasil não é cachaça que se encontra na esquina. Ela é “a cachaça” de endereços paulistanos classe A, como Bagatelle, Gero e Dalva e Dito. O licor de cachaça da marca é servido até na joalheria H. Stern da Oscar Freire.

Falando em joia, o alambique da Gouveia, nesse momento de fim de safra, estava um brinco. Em 2017, saíram 28 mil litros de cachaça dali. O master blender Armando del Bianco – o Michael Phelps da cachaça – já me disse em entrevista (veja aqui) que aquele tinha sido o primeiro lugar em que não tinha sido pressionado para aumentar a produção. Agora. ele afirma que não há a menor intenção de alambicar mais do que 40 mil litros nas próximas safras. A proposta é aprimorar ainda mais a qualidade.

Não é por acaso, portanto, que uma das paredes do grande salão onde está o alambique já tem pendurado um bom número de diplomas atestando as conquistas da marca. O alambique – de porte médio – fica na parte mais baixa de um dos prédios que foram construídos para abrigar a produção da Gouveia, depois que Brasil resolveu trocar a vitoriosa carreira publicitária pela cachaça. “E eu que só bebia uísque!”, exclama ele, com olhos arregalados e ainda meio impressionado com a virada em sua vida.

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A área de produção está brilhando, com todo o equipamento com jeito de que acabou de sair da fábrica, depois da limpeza típica de fim de temporada. “Todas as nossas tubulações são de inox”, mostra um orgulhoso Armando del Bianco, apontando para o material que facilita a limpeza e ajuda a evitar contaminações no produto final. “Vocês conhecem algum alambique assim?”, pergunta. “Eu não”, ele mesmo responde, com a convicção de quem, praticamente, nasceu no canavial e lida com fermentação e destilação há três décadas.

Quando eu resolvi entrar aqui, eu não quis fazer um puxadinho”, diz Brasil. “Armando teve liberdade para indicar o melhor material possível”.

De fato, não é um ‘puxadinho’ da antiga área de produção, que destilava cachaça para consumo regional e hoje está praticamente sem uso. A nova área é ampla, arejada e sem frescuras. Não há qualquer elemento de “tecnologia de ponta” ou coisa parecida, nada a mais do que o útil e necessário – o que é bastante saudável para o processo, já que equipamento adicional é também chance adicional de contaminação. Tudo é orgânico e funcional, com direito até a uma coluna de destilação para produzir etanol, usado como combustível.

Armando anda experimentando, sempre em busca de resultados melhores. “Estou mantendo a espuma que cresce dentro da dorna na hora da fermentação. Acredito que ela ajuda a proteger o caldo de pequenos insetos”, diz, mostrando as dornas.

Novos produtos, com processo diferenciado, especialmente na linha Porto do Vianna, e na de bebidas mistas, estão em fase de gestação, mas ainda em sigilo. Os convidados daquele feriado, no entanto, puderam provar essas delícias em gestação, porque, após percorrermos toda a área de produção, sentamos diante da varanda da sala de recepção da Gouveia Brasil para um convescote que se estendeu noite adentro. Enquanto esperávamos por uma leitoa que estava sendo preparada com requinte e sem pressa desde a manhã, nos dedicamos à degustação das maravilhas da casa e à boa arte da prosa – coisas que, juntas, harmonizam à perfeição.

Armando nos falou sobre o megaprojeto de produção de cachaça em que se meteu com uns chineses. “Quando cheguei, de ônibus comum, só com uma malinha, os chineses estranharam e um deles comentou: ‘Armando é pessoa de hábitos simples’”, contou, imitando o sotaque chinês e com a gargalhada de bom mineiro que lhe acompanha.

Também mostrou para nós o novo lote da Gouveia Brasil Extra Premium, cujo blend, essa arte que se renova a cada barril aberto e está toda apoiada na sensibilidade do master blender, ainda está em processo. “Já achei o caminho, agora é fazer a sintonia fina”, disse, abrindo uma garrafa que, saborosamente, comparamos com o produto finalizado, o lote desse ano.

Mestre Deriva, Celso Lemos, Dirley Fernandes, Ar,mando del Bianco, Roberto Brasil e Daniel Júlio (Foto: Beto Vieira)
Mestre Derivan, Celso Lemos, Dirley Fernandes, Armando del Bianco, Roberto Brasil e Daniel Júlio (Foto: Beto Vieira)

Um bitter à base de jaboticaba, o Biancocello (variante do licor limoncello, à base, claro, de cachaça), uma nova branquinha em desenvolvimento com método ainda secreto… tudo passou pela mesa, com fartura de aromas e sabores, enquanto Celso Lemos, um dos grandes talentos do marketing brasileiro, demonstrava seu bom gosto na seleção musical e Roberto Brasil, ao lado do filho Beto, falava da família, de serestas e de sonhos sonhados e realizados. “Ter o Wilson (Melo, que cuida das finanças da empresa) e o Celso, caras que eu vi começando quando eu ainda estudava, e sempre admirei, trabalhando comigo agora… Isso é uma tremenda realização”, disse. 

A noite caiu e Roberto Brasil, olhando para os lados do rio Sapucaí, alterado para melhor pelas boas cachaças bebidas e já reintegrado às terras mineiras como um pé de jequitibá, propôs: “Vamos ficar aqui, esperando pelo futuro. Quando ele chegar, diremos: ‘Bem-vindo. Já estávamos à sua espera!’”.

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Beto (acima), obervado pelo pai, Roberto

 

Mais sobre a Gouveia Brasil, leia aqui.

Quer sentir o sabor da Porto do Vianna? Leia na seção Cachaças de A a Z.

Leia um perfil de Armando del Bianco aqui.

Um comentário

  1. Dirley,

    obrigado por tão sensíveis palavras que encantam a alma. Dá orgulho na gente sô!

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