Inicio / Cachaças de A a Z / Pé de jaca dá cachaça. E das boas! Conheça duas armazenadas em jaqueira

Pé de jaca dá cachaça. E das boas! Conheça duas armazenadas em jaqueira

Por Dirley Fernandes

Como bem diz o meu amigo e mestre Erwin Weimann, “o exagero na variedade de madeiras de apresentação das cachaças pode redundar em retrocesso ou obstáculo para a oportunidade que se apresenta ao Brasil de abrir o mercado externo para os novos sensoriais do nosso destilado”. (Cachaça em Revista, ed. V).

De fato, existe uma certa corrida desenfreada por novas madeiras de envelhecimento para a cachaça, o que é normal diante de dois fatores concorrentes: a biodiversidade brasileira e a competitividade do mercado de cachaça de alambique, onde se destacar da multidão é tarefa que exige mesmo a busca por diferenciais.

O perigo é sempre o exagero e já temos visto um ou outro caso, que convém não destacar agora. Excesso de exotismo e o leque excessivamente aberto podem redundar em confusão – e consequente rejeição – e perda de referencial.
Muitas vezes, menos é mais e se concentrar nos mínimos detalhes para atingir padrões mais elevados em uma cachaça de corte mais tradicional pode ser a chave que abre as portas da excelência.

Por outro lado, não devemos de todo descartar novas experiências e possibilidades. Seja no que se refere a modos de produção, a blendagens ou mesmo à introdução de novas madeiras no cardápio clássico das madeiras canônicas. Com a devida cautela, não há porque não seguir em frente.

E uma madeira, em especial, tem aberto caminhos entre a biodiversidade brasileira e requerido para seus tonéis um lugar de destaque na produção cachaceira: a jaqueira.

A frondosa árvore que nos dá a pesada jaca, a rigor, não é brasileira. Sua origem é indiana, mas ela chegou ao país ainda no século XVIII, tendo se adaptado tão bem que já podemos chamá-la de naturalizada.

Uma mas marcas pioneiras no armazenamento em jaqueira foi a Cachaça Matriarca, cujo alambique, no sul da Bahia, se localiza em área onde a espécie dá até em excesso (como ela ocupa muito espaço, eventualmente, pode prejudicar o desenvolvimento de outras árvores, como acontece na Floresta da Tijuca, no Rio). A ampla disponibilidade da jaqueira é inversa à de algumas madeiras brasileiras, cada vez mais escassas, como é o caso do amendoim, entre outras.

cachaça tiziu, cachaça princesa isabel

Aqui, falaremos de dois exemplares de cachaças armazenadas na jaqueira, ambas entrantes recentes no mercado, que ilustram à perfeição o grande potencial dessa espécie na produção de belas cachaças e ainda comprovam que, a partir dela, é possível criar produtos bem diferentes entre si: a capixaba Cachaça Princesa Isabel e a salinense Cachaça Tiziu, ambas armazenadas por menos de um ano na madeira.

A Tiziu, sobre a qual o colunista do Devotos Manoel Agostinho Lima Novo já falou aqui, é produzida em Salinas (MG), pelos mesmos responsáveis da tradicional Sabiá. Já a Princesa Isabel é fruto das margens do resistente rio Doce, no Espírito Santo. A primeira segue, de peito aberto, a tradição das terras onde nasce: é cachaça expressiva e generosa, com sabores que explodem no palato. A segunda representa uma escola mais contemporânea: é elegante e equilibrada. Ambas são ligadas pelos taninos interessantes e pela doçura oblíqua proporcionada pelo armazenamento em jaqueira.

As diferenças já se revelam na cor das duas cachaças: a Cachaça Tiziu Jaqueira é de um ouro esmaecido, na fronteira com um bálsamo mais leve. Já a Cachaça Princesa Isabel Jaqueira tem um tom acobreado, claro e intenso, aproximado, mas não idêntico, ao carvalho.

Os aromas da Cachaça Tiziu se escondem um pouco sob o registro mais alcoólico, antes de revelar um frescor de capim limão e erva cidreira. São bonitas de ver as pérolas se desfazendo muito lentamente na superfície da taça, denotando a densidade generosa dessa cachaça, como é tradição de sua origem salinense.
Na boca, é cachaça expressionista. Se não soubesse que foi armazenada em jaqueira, o devoto poderia imaginar que se trata de um blend de bálsamo com uma pitada de umburana e quem sabe um toque de sassafrás. Isso porque ela é doce, mas tem lá sua cica, uma rusticidade divertida e um final longo, herbal e apimentado, extremamente agradável para o bebedor mais experimentado, que não vai estranhar seus 47% de teor alcoólico e a pujança de seus complexos sabores.

Já a Princesa Isabel, com assinatura do consultor Leandro Marelli, é mais sutil e recatada. Os aromas são mais frutados, o álcool (40%), menos presente. O corpo é médio; os sabores se apresentam com mais formalidade. A doçura está ali, os taninos, também, mas tudo sob um quadro de mais suavidade, um cenário menos escarpado. O final é menos persistente e sem picância. Tons de ameixa e framboesa se revelam como uma carícia.

Enfim, duas cachaças com alta qualidade, muita personalidade e aromas e sabores extremamente interessantes. O devoto deveria tentar encontrar as duas. A Cachaça Tiziu se acha aqui no Rei da Cachaça, site de e-commerce do próprio produtor, o distribuidor Tito Moraes, do Tonel e Pinga, com uma relação qualidade x preço insuperável no mercado atual. A Princesa Isabel pode ser achada no site do produtor, por valores igualmente justos. Ou no Guarita Bar, para quem estiver em São Paulo. É lugar que sempre vale a pena visitar. Leia sobre ele aqui.

Se o mês tiver sido fraco e for necessário optar por apenas uma delas, sugiro o método da aproximação: os fãs do bálsamo, por exemplo, da Indaiazinha, terão satisfação garantida com a Tiziu; os admiradores do carvalho, hão de adorar a Princesa Isabel. Questão de gosto… e de tradição de produção.

Mais sobre a Cachaça Tiziu? Clique aqui.

Já conhece a Princesa Isabel Jequitibá? Saiba aqui.

Mais Cachaças de A a Z? Entre aqui.

Mais sobre a Cachaça Indaiazinha? Deguste aqui.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

giay nam depgiay luoi namgiay nam cong sogiay cao got nugiay the thao nu

Devotos em seu e-mail