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Cachaça de Minas: as raízes de uma paixão

Por Dirley Fernandes

“O açúcar e a aguardente são os principais gêneros que Salgado oferece em troca aos mercadores de sal, e é fácil compreender que vantagens que deve fluir desse comércio uma localidade que, por sua lavoura, constitui no deserto uma espécie de oásis”.

Foi Auguste de Saint-Hilaire – o viajante que inspirou o batismo desse site ao descrever o gosto do brasileiro pela cachaça e não pela embriaguês, o que levou Câmara Cascudo a escrever a frase: “Atenda-se que o brasileiro é um devoto da cachaça, não um cachaceiro” – quem assentou a descrição acima. O ano é 1817. A citada Salgado é conhecida hoje por Januária, entreposto comercial fundamental do rio São Francisco (o mais importante da região até a década de 1960) e um dos principais polos produtores de cachaça de Minas Gerais.

Naquele início de século XIX, a cana já havia dado uma boa centena de safras na região, segundo relatam outros viajantes. As primeiras mudas devem ter percorrido o Caminho do Sertão, vindas do Recôncavo Baiano, na virada do século XVIII. Ou, menos provavelmente, da região mineradora de Vila Rica, onde os engenhos – com moenda, casa de purgar e alambique – se multiplicaram no mesmo século.

E por que Minas Gerais se tornou a terra da cachaça? Porque os mineiros bebem muito, uai, poderia ser a resposta. E estaria correta. O consumo em Minas Gerais era impressionante em meados do século XIX, como conta Marcelo Magalhães Godoy. “Os dados da entrada de aguardente pela Recebedoria do Taquaral permitem aproximação do consumo per capita de Ouro Preto. A média mensal de 17.241 litros de aguardente dividida por 13.567 ouro-pretanos (Silva, 1997) projeta consumo per capita anual de 15,3 litros”. Detalhe: havia na cidade quatro recebedorias por onde a cachaça entrava. No Brasil, hoje o consumo per capita é de cerca de 5 litros.

cachaça de Minas
Ouro Preto (Imagem: blog Ceca e Meca)

Outra resposta poderia ser: porque Minas tem tradição liberal. Também não estaria de todo errada. Quando se esgotou o ciclo do ouro, a região mineradora tinha uma estrutura social menos desigual do que a do restante do país, não obstante a base escravocrata em comum. Havia latifúndios, mas não eram tão comuns as enormes fortunas. Existia uma miríade de pequenas propriedades agrícolas produzindo e comerciando produtos variados. Produzir cachaça era sempre uma boa opção para esses pequenos proprietários. E era uma civilização urbanizada, onde escravos, libertos, quase pobres e nem tão ricos se esbarravam pelas ruas de Mariana e São José do Rio das Mortes.

A estrutura social sobre a qual Minas foi assentada é, no entanto, a resposta mais completa. Na virada do século XVIII, a região mineradora começa a ser ocupada. O Arraial de Nossa Senhora do Carmo (mais tarde, Mariana) é fundado em 1696. Desde o início, se procura estabelecer uma rede de abastecimento autônoma, já que a região é isolada dos grandes centros. A plantação e o beneficiamento de cana para a produção de açúcar, rapadura e aguardente aparecem como uma atividade preferencial, que já era dominada por paulistas, nordestinos e fluminenses que chegavam aos milhares à região do Rio das Mortes. Ao longo do século XVIII, Minas Gerais se tornaria a região brasileira com o maior plantel de homens escravizados do país.

Os cativos trabalhavam nas minas, na criação de gado e na agricultura, sobretudo na colheita sazonal e beneficiamento da cana, inclusive na produção da cachaça de Minas. Esses escravos, da mesma forma que os migrantes pobres que vinham tentar a sorte nas minas tinham como principal, quase única, oferta de bebida a cachaça – a qual, de geração em geração, mesmo quando passavam à condição de libertos, continuava sendo a sua amiga fraterna.

Quando as minas se esgotaram, a cana de açúcar foi a principal saída para manter algum dinamismo na economia local. Minas Gerais se tornou o mais importante espaço canavieiro do país, superando Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Na década de 1830, quando se estabelece um imposto sobre a produção de aguardente, Minas já teria o impressionante número de 4.150 engenhos, sendo 2.470 produtores de aguardente. Oitenta e cinco mil escravos trabalhavam na colheita da cana.

A produção de aguardente somava 22 milhões de litros para uma população que somava cerca de 850 mil pessoas – sendo 270 mil escravos. Quase toda a produção (98%) era voltada para o consumo interno. Em 1836, a rede comercial de vendas de bebidas mineiras  foi mapeada. Como base nos dados, Marcelo Magallhães Godoy calcula que existiam 6,5 mil casas de negócios nos distritos mineiros. A cachaça estava presente em 69,7% deles; os dispendiosos espíritos importados em apenas 12,9%.

Ou seja, estabelecera-se um mercado com uma multidão de pequenos produtores (2.470 fabricantes é um número maior do que o que temos hoje, oficialmente: em torno de 1,4 mil em todo o Brasil). A cachaça era escoada em todos os distritos, mas tinha que competir pela preferência do consumidor – por via do preço, da qualidade ou da inovação nos produtos, que eram compostos com folhas, raízes, mel e, principalmente, vendidos puros. Havia cachaça para todo gosto. E era preciso que fosse boa. E ainda tem. E ainda é boa.

A proeminência da produção açucareira mineira no Brasil durou até a década de 1920 do século XX, quando as grandes usinas, lastreadas pelos latifúndios, instaladas em outras regiões, sobrepujaram os engenhos e engenhocas mineiros, que, com isso, voltaram-se mais ainda para a produção de cachaça por métodos tradicionais. E com o desenvolvimento do comércio interestadual, todos os estados puderam ter contato com a excelência e variedade da cachaça de Minas, que, aos poucos, foi construindo a sua merecida fama de excelência.

O café e outros produtos, à essa altura, já tinham assumido o proscênio da atividade econômica, mas a cachaça já tinha dado importante contribuição – e continuaria dando – para o desenvolvimento do estado.

Foi a distância de Minas Gerais, fechada em suas montanhas e orgulhosa do que produzia, e a multiplicação de produtos e produtores que fez do estado a terra da cachaça. Há muito mais a ser dito sobre o tema, mas não cabe num post. É como dizia Fernando Brant (na parceria com Toninho Horta): “Bendito é o fruto dessas Minas Gerais!”.

3 Comentários

  1. Luiz Gonzaga Teixeira

    Muito bacana !.. Que venha todas as Cachaças mas, que tenha Qualidade e muito Carinho ao produzi-las👍👍👍👍Parabéns ao Roberto Brasil meu Amigo um grande abraço e Sucesso

  2. Excelente. E é importante dizer que todo o movimento de revalorização da Cachaça começa em minas em meados dos anos oitenta. Alguns ações como tombar a bebida como bebida oficial passam de reconhecimento simbólico e viram estratégias de divulgação. Os mineiros sabem onde tem Ouro. Sabem das coisas. Parabéns!

  3. Show de bola! Como falamos aqui em Minhas, é um “tiquin” de história uai! Bom demais! E viva a cachaça!

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