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Gouveia Brasil Extra Premium: como nasce uma cachaça Grand Gold

Por Dirley Fernandes

Roberto Brasil gosta de frases de impacto, típicas de quem dedicou quatro décadas da vida ao mercado publicitário: “Meu maior defeito é ser otimista”, solta ele, ao explicar por que resolveu construir uma marca de cachaça em meio à mais longa crise econômica da nossa história. “Eu gosto de ser o pior da minha equipe!” é outra do repertório, sacada ao comentar o alto nível dos profissionais que o cercam no seu escritório paulistano ou na sua destilaria mineira.

Mas que ninguém se engane: as tais frases estão longe de serem vazias de sentido. Afinal, o empreendedor tem café no bule, cachaça no barril e resultado pra mostrar: a bebida que ele produz, a Gouveia Brasil Extra Premium, com pouco mais de três anos no mercado, já tem um diploma e tanto para pendurar na parede: foi a única cachaça e um dos dois únicos produtos brasileiros a receber uma medalha Grand Gold na edição 2016 do respeitado Spirits Selection, o concurso de destilados mais respeitado do mundo.

Otimismo e boa equipe não faltam a Brasil (Wilson Melo é o CEO da empresa), mas, se não fosse a herança familiar, ele ainda estaria bebendo o uísque padronizado que consumiu a vida toda. “Eu não sabia direito o que era cachaça, até o dia em que estava na fazenda e meu primo apareceu na minha frente com uma peça de moenda quebrada”.

Fazer cachaça é tradição na família, está no sangue. Por volta de 1900, instalado na fazenda às margens do rio Sapucaí onde hoje nasce a Gouveia Brasil Extra Premium, Alfredo Vieira Gouveia começou a produzir o destilado, que era escoado pelos barcos que desciam o rio. Em 1905 teve início a construção da ponte pênsil que ainda hoje liga os municípios de Turvolândia e São Gonçalo do Sapucaí, em Minas Gerais. Para a obra, que durou seis anos, vieram muitos alemães, que eram alimentados por Dona Carolina, avó de Brasil, e bebiam, à farta, da pinga de seu Alfredo.

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A cachaça ajudou a criar os nove filhos de Alfredo e Carolina. E o encontro entre os primos, quatro anos atrás, abriria um novo capítulo da história. O primo, Ivanil, se queixou com Brasil. “A minha cachaça está muito boa, mas é complicado cuidar de tudo sozinho. Tem a produção, a venda… Acho que eu estou precisando é de um sócio”. Conseguiu um na hora. Brasil já estava começando a contar o tempo para deixar a publicidade e resolveu mergulhar de cabeça na cachaça.

Começou aí a história da Gouveia Brasil Extra Premium. Como todo produtor que entra no mercado, Brasil queria lançar um produto diferenciado. A diferença, na verdade, foi tomar o rumo certo e fazer as melhores escolhas. “Fizemos um trabalho de marca. Só para desenvolver a embalagem, levamos um ano”. A elegantíssima garrafa, da Verallia, é “cortada” ao meio, remetendo aos nós da cana, e alongada como um pé da gramínea. A embalagem – há versões com um case em couro – valeu os primeiros prêmios recebidos pela Gouveia Brasil Extra Premium.

Na produção, Brasil e sua equipe reformaram todos os equipamentos, com novos alambiques e tubulações em aço inox.  Mas o grande salto começou a se desenhar numa conversa entre Brasil e o bartender Leandro Batista, um dos maiores especialistas em cachaça do planeta. Em Turvolândia já havia cachaça boa descansando em barris de jequitibá, carvalho e até uma bem envelhecida, muito puxada na umburana. Só era preciso um master blender que soubesse juntar aquilo nas proporções exatas que produzissem a alquimia de uma cachaça com identidade própria e qualidade superior. Brasil perguntou a Leandro: quem era o melhor para essa tarefa? O especialista, com a cautela habitual, pensou por alguns segundos e respondeu: Armando Del Bianco. “Liguei durante meses sem conseguir falar com ele. Estava sempre nas fazendas e não me retornava. No dia em que consegui, a gente conversou e resolveu tudo na hora”, conta Brasil, que, assim como Armando, confia mesmo é no “fio do bigode”.

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Armando del Bianco no alambique da Gouveia Brasil

Profissional que aprendeu tanto nas melhores escolas do mundo como nos canaviais e alambiques mais profundos das Minas Gerais, Armando é responsável pelos blends de dezenas de cachaças primorosas. O Devotos contou parte de sua história nesse post.

Em meio a tantos investimentos, o Brasil – o país, não o produtor – entrou em crise, mas a Gouveia Brasil não mudou os planos de apostar numa cachaça extra premium, top de linha e, consequentemente, com preço mais alto. “Em momentos como esse, sofre menos quem aposta no topo da pirâmide”, diz Elmin Siqueira, diretor de Marketing e Vendas da empresa, com a experiência de quem atravessou muitos períodos turbulentos em três décadas trabalhando em companhias de consumo. “A aposta que fizemos foi na entrega da qualidade. E fomos ganhando a certeza de que tinha um produto apaixonante”, diz Brasil. “São poucos os produtores que não pressionam para produzir mais. Aqui, eles querem é que a cachaça saia boa; então, eu posso trabalhar só com o melhor”, garante Armando Del Bianco, que vai fechar o ano com uma produção entre 20 mil e 25 mil litros.

Com equipamento novo, as boas práticas de produção estabelecidas em todas as etapas do processo e um blend de jequitibá, carvalho americano novo e umburana magistralmente equilibrado para reunir na taça acidez e doçura, sabores frutados e alguma madeira, os prêmios eram questão de tempo. Em junho de 2016 veio a medalha de ouro da Expocachaça e, no início de setembro, a Grand Gold no Spirits Selection, braço de destilados do Concurso Mundial de Bruxelas, superando 30 cachaças e mais de 1.000 destilados de todas as categorias (a Ypióca 160, cachaça composta com malte, foi a outra bebida brasileira a levar uma Grand Gold).spirits

“Quando o resultado saiu, começamos a procurar nosso nome entre as medalhas de prata, depois entre as de ouro, e então bateu o desânimo. Quando vi que estávamos entre as Grand Gold, aí foi um balde de felicidade. É muito gostoso ver o resultado do trabalho”, relembra Brasil, já com a pressão subindo de novo.

Com o prêmio, o telefone da Gouveia Brasil começou a tocar repetidamente. “São novos empórios, bares e restaurantes que se tornam clientes. E os antigos, que aumentaram o volume dos pedidos. O Barbacoa (steak house paulista) passou de três garrafas para duas caixas (de oito garrafas)”, exemplifica Elmin.

Agora, os planos são aumentar a linha de produtos e atingir mais mercados, já que a estratégia inicial foi estabelecer uma base forte em São Paulo. Conversas com traders de Hong Kong e Suíça também podem levar, a médio prazo, ao mercado internacional. Mas com calma. No ano que vem, uma cachaça com três anos de envelhecimento em carvalho deverá ampliar o portfólio da empresa, que tem também as bebidas saborizadas MEI (sabor jabuticaba e mel e limão) e a branca Profissional Gouveia Brasil.

A volta da cachaça ao Simples a partir de 2018 deixa Brasil ainda mais otimista. “Isso vai ser positivo, porque pode trazer muita gente que está hoje no mercado paralelo para a formalidade”.  Satisfeito com a escolha que fez quando trocou o uísque pela cachaça – que agora bebe regularmente –, Brasil acha que o segredo do sucesso está sendo “fazer um bom trabalho de marca, pensando para dentro – no produto – e para fora – no cliente”. “O importante é fazer com que a cachaça seja percebida e tenha o valor que ela merece”, conclui.

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Um comentário

  1. Excelente cachaça, fabricada em nossos equipamentos.

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