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O mais belo alambique do Brasil

Por Dirley Fernandes

Prezado Devotos,

Também sou devoto e gostaria de fazer uma pergunta: vou viajar daqui a duas semanas com minha noiva e quero visitar algum alambique. Assinei a newsletter e a leitura do site me dá sempre vontade de desfrutar da nossa marvada. Mas tem que ser num lugar bonito, numa cidade com distração, porque assim ela me deixa beber minha cachaça enquanto se distrai.”

O e-mail que chegou anteontem à caixa postal do Devotos merece urgente resposta. O editor pensou em muitos lugares para indicar aos nubentes – moradores da porção paulista do Vale do Paraíba. Minas Gerais, ali perto, por exemplo, teria dezenas de opções a oferecer. No entanto, a verdade é que, se formos nos concentrar no termo “lugar bonito”, um alambique se ergue no horizonte na condição de hours concours: o da cachaça Maria Izabel, de Paraty (RJ).

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O post é um serviço para o devoto Felipe, autor da missiva, e espero que possa ser aproveitado por todo devoto, porque a visita a Paraty é como a peregrinação a Meca para os muçulmanos: deve ser feita pelo menos uma vez na vida. E o sítio Santo Antônio, sede da Maria Izabel, é um dos pontos altos dessa jornada.

Ah, Paraty! É um dos recantos mais lindos sobre a Terra. A cidade, propriamente, com o casario que é um dos maiores tesouros do período colonial do Brasil, é misteriosa, com ruas tortuosas, segredos a cada esquina, ótima cozinha caiçara e lojinhas bacanas. A noiva de Felipe terá muito com que se distrair.

O litoral é uma sucessão de pequenas e calmas praias onde o olhar se perde no recorte das centenas de ilhas da baía da Ilha Grande. Dez quilômetros ao norte do Centro Histórico, numa ponta que avança sobre a baía Carioca, fica Maria Izabel, o mais belo alambique do mundo.

Chega-se ao sítio pela parte alta do terreno. E o terreno é pouco mais do que um pequeno morro com três construções principais que segue em declive por cem metros até mergulhar no mar de Paraty. O que se vislumbra, da parte de cima, é tudo mar, o azul profundo e manso da baía de Sepetiba. À direita, a Ilha do Araújo, terra de cirandas e festivais de camarão. Atrás, a mata dos tamoios.

Na parte superior, ficam a moenda e as dornas de fermentação. Mais abaixo, o alambique. No meio do terreno, um pequeno galpão abriga os barris de envelhecimento, a loja e uma varandinha onde se degusta cachaça alçando a vista sobre o mar e a mata.

Jequitibá e carvalho
Jequitibá e carvalho

Mais abaixo, a casa de Maria Izabel e quartos para hospedagem. Um metro adiante, o mar. Felipe, você e sua noiva terão a sensação de que chegaram ao paraíso. Ela, pela beleza do lugar; você, pela nobreza das cachaças ali produzidas. E talvez seja ali mesmo o paraíso, caro devoto. Deixar o local e voltar ao cotidiano é como cair do céu.

Felipe, não falarei tudo sobre Paraty e sobre a cachaça de Paraty aqui. Isso demandaria uma coleção de cem posts e talvez o tema não se esgotasse. Mas é preciso um rápido interregno histórico: Paraty foi o berço da cachaça. Não foi a maternidade, o local de nascimento. Não se sabe exatamente onde esse evento se deu, de fato. Mas há certidões de nascimento – sendo mais claro, documentos que mostram a produção de aguardente no século XVI no Engenho São Jorge dos Erasmos, fundado nos anos 1530 no atual município de Santos, a 200 quilômetros, em linha reta, de Paraty.

Paraty foi ocupada por portugueses vindos da região onde hoje é Santos por volta de 1600. E a tecnologia de produção de cachaça fincou raízes por lá, facilitada pela comunicação com o interior, via Estrada Real, e com o restante da província, pelo porto. A multiplicação de alambiques foi tal que logo o termo “parati” se tornaria sinônimo de cachaça.

Agora, falemos da cachaça Maria Izabel. É produto fino, uma das melhores cachaças produzidas no Rio de Janeiro – estado que conta com uma produção do mais alto nível. Basicamente, são duas cachaças e uma aguardente: a jequitibá, a carvalho e a azuladinha. Essa terceira é uma branca, com adição de folhas de tangerina em seu processo de alambicagem, o que dá um matiz levemente azulado à sua transparência. A jequitibá, que descansa por alguns meses antes de ir para a garrafa, é uma cachaça macia, mas picante, com um certo toque rústico que agrada muito aos devotos mais devotados.

Já as cachaças de carvalho da casa são extremamente variáveis. Isso acontece porque elas não são blendadas. Quando um determinado barril está num ponto interessante, a cachaça toda daquele barril é engarrafada e as datas do início do armazenamento e do engarrafamento são anotadas, a caneta, no contrarrótulo da bebida.  Se você for ao sítio Santo Antonio, há cachaças com um ano e meio de envelhecimento, outras com três anos. Experimente e decida qual você quer levar para casa.zabe

Claro que esse método faz com que se tenha cachaças bem diferentes a cada garrafa aberta. Isso seria um ponto negativo, mas nesse caso específico não chega a ser. A produção da Maria Izabel é particularmente artesanal. A safra desse ano não chegou a 7 mil litros. Exigências de padronização, nessa escala, são sobrepujadas pelo mais importante: a artesania, a engenhosidade, o amor dedicado à produção pela alambiqueira e proprietária da cachaça: Maria Izabel.

Maria Izabel
Maria Izabel

Maria Izabel é figura bem conhecida do mundo da cachaça. Paratiense de raiz, ela começou a produzir sua cachaça há 20 anos no sítio da família. Por muito tempo, alambicou sozinha, safras e safras, com fermento caipira, composto com o milho plantado ali mesmo. A cachaça da Maria Izabel ganhou fama, ganhou rótulo de designer internacional, o alambique ficou mais equipado e a produtora contratou quatro auxiliares. Mas, a verdade é que a produção segue o mesmo passo do início: cana do sítio, alambicagem sem diluição do mosto, fermento caipira, envelhecimento empírico, produção limitada…

Felipe, converse com Maria Izabel. É ela quem atende os visitantes do sítio Santo Antônio. Ela vai te mostrar o alambique, fazer uma plácida degustação na varanda e embalar as cachaças para você levar para Caçapava. É uma mulher forte, orgulhosa, muito inteligente. Eventualmente, um pouco ríspida, mas sempre franca e com um humor bem peculiar. E ela anda descalça no sítio. Já é parte do folclore. Mas quem sabe não é do contato permanente com aquela terra abençoada que venha a força da alambiqueira e o sabor da cachaça Maria Izabel?

Abraços.

 

2 Comentários

  1. José Francisco Abreu

    Gostaria de fazer duas observações: a baía é “Baía da Ilha Grande” – Sepetiba é a baía que começa na região de mesmo nome, no município do Rio de Janeiro e vai até próximo a Mangaratiba. Aí começa a Baía da Ilha Grande, que banha Angra e Paraty.
    A outra observação: essa baía não é “carioca”, mas fluminense – é assim que se designa o que pertence ao interior do estado do Rio.

    • Dirley Fernandes

      José, obrigado pelas observações. A baía, de fato, é a da Ilha Grande, apesar de elas serem ligadas. Corrigido. O Carioca aí é um nome próprio, não um gentílico. É um dos nomes pela qual é conhecida a pequena baía diante de Paraty, ainda que o nome de baía de Paraty seja o mais comum.

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