Inicio / Destaques / Os alemães e a cachaça gaúcha

Os alemães e a cachaça gaúcha

alemães

Por Dirley Fernandes

Weber, Hilgert, Haus, Shnnaps… esses sobrenomes e termos alemães que encontramos na cachaça gaúcha chamam a atenção por diferirem do universo da cachaça com seus nomes mais  prosaicos, com jeitinho de Brasil interiorano… Famosinha, Fabulosa, Boazinha, Severina do Popote… Mas é que a cachaça feita pelos descendentes dos imigrantes alemães do Rio Grande do Sul repete a trajetória do próprio estado, com uma história muito particular, construída quase que de forma autônoma, isolada, em relação ao conjunto do país.  Com a ajuda do historiador Rodrigo Trespach, vamos ver um pedaço desse percurso que levou a cachaça gaúcha ao padrão de qualidade excepcional de marcas como a Weber Haus e a Harmonie Shnapps.

Tudo começa no século XVIII. O Brasil era, de certa forma, um vasto litoral coberto por canaviais de norte a sul. A cultura da cana já tinha mais de 200 anos no país. No entanto, essa cultura só iria chegar ao Rio Grande por volta de 1770, quando açorianos foram enviados para o entorno do Posto da Guarda, no atual município de Santo Antônio da Patrulha. Em 1773, como conta Trespach, grande especialista na história da migração alemã e do litoral norte gaúcho, o português Domingos Fernandes Lima instalou um engenho de cana às margens da lagoa da Pinguela, no atual município de Osório. As mudas vinham de sua terra natal, a ilha da Madeira, de onde vieram as primeiras mudas de cana-de-açúcar trazidas ao Rio Grande do Sul.

Quando os alemães chegaram à região do litoral norte, na década de 1820, começaram a se dedicar àquela que era a única atividade inicialmente possível por ali: a agricultura. Em condições de isolamento, precisavam lutar diariamente pela sobrevivência, enquanto planejavam o futuro. Além das batatas, tiveram que aprender a cultivar aquilo que os portugueses já plantavam, como feijão e mandioca. E, logo, também, aderiram à cana-de-açúcar, que dava três derivados importantes: o açúcar, a rapadura e a aguardente.

Não tardou para o caldo da cana começar a ser destilado. Assim, a primeira cachaça gaúcha produzida por um alemão foi alambicada em algum dia de 1829 ou 1830. E a pequena indústria prosperou. O clima e o solo eram favoráveis e o cultivo canavieiro se espalhou de Torres até o sopé da Serra Geral. Osório e Torres dominavam o comércio da caninha. E a caninha ajudou os moradores locais a prosperar, sendo uma das mercadorias mais vendidas aos tropeiros que cruzavam a região. Em 1850, era o principal produto local – 91 pipas de aguardente em Três Forquilhas e 632 pipas em São Pedro de Alcântara, duas colônias alemãs, recolheram os devidos impostos ao Império naquele ano.

Como se vê, a cunha fiscal já era forte sobre o produtor de cachaça. Os problemas de infraestrutura também, como relata o inspetor da Colônia, tenente-coronel Francisco de Paula Soares Gusmão: “Somente o fabrico de aguardente da cana bastaria para elevar a Colônia a um alto grau de opulência. Esta via que até hoje seguem os colonos, moradores do Distrito de Torres, para a exportação das suas aguardentes, couros e outros gêneros, diariamente se torna mais custosa pela exorbitância dos fretes das carretas”.

A dificuldade era tanta no transporte que os produtores Kreuzburg e Magnus fabricaram grandes carretas de bitola larga pra enfrentar o terreno puxadas por até oito juntas de bois (16 animais!). Só assim para vencer as estradas e levar a cachaça até Porto Alegre.  O percurso de 200 quilômetros era feito em 15 dias. Mas, na capital, a carga era rapidamente vendida.

Em 1928, nas terras que eram ocupadas pela destilaria da Pinguela desde o século XVIII se ergueu o principal marco da produção de derivados de açúcar do Rio Grande do Sul: a Santa Martha, a primeira grande usina do estado. Terminava a fase heroica da produção de cachaça gaúcha. Mais tarde, perto de onde ficava a usina, se iniciaria a fabricação das cachaças Velho Pescador e… Santa Martha. Essas cachaças hoje fazem parte do portfólio da Weber Haus, fundada por descendentes de alemães que se instalaram em Ivoti, a 120 quilômetros de Osório. A família produz cachaça desde o século XIX.

 

 

 

 

 

3 Comentários

  1. Boa matéria…. mas a foto não é de um engenho de cana ….. é de uma “maromba” primitiva usada na fabricação de tijolos.

  2. Parabéns pelas pela pesquisa Dirley. Não sei se há registros escritos mas, também a colônia italiana instalada na serra gaúcha produziu muita cachaça a partir do ano 1800. Os mesmos alambiques que destilavam a graspa (grappa) que era produzida com o bagaço da uva, após a produção do vinho, entre janeiro e março, eram usados para destilar o caldo de cana, no inverno. Muito oportuna também sua pesquisa e divulgação da matéria que conta a história da cachaça no Brasil. Andei pesquisando sobre a origem do nome do nosso mais famoso coquetel, “a caipirinha” e fecha com as suas informações quanto ao início da produção no litoral paulista, especialmente Santos e São Vicente. Grande abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

giay nam depgiay luoi namgiay nam cong sogiay cao got nugiay the thao nu

Devotos em seu e-mail