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A Cachaça e a Revolta da Chibata

 

O navio Bahia, um dos amotinados
O navio Bahia, um dos amotinados

“Glória aos piratas, às mulatas, às sereias. Glória à farofa, à cachaça, às baleias.Glória a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais.” Os versos, todo mundo conhece – e se não conhece, provavelmente não vai se interessar por esse site –, são do demiurgo Aldir Blanc, que desde a Muda, vela por nós. Mas o mestre teve – ou se não teve, deveria ter tido – um motivo especial para incluir a minha, a sua, a nossa Cachaça na letra de Mestre Sala dos Mares, canção que canta as glórias do herói do povo João Cândido. A cachaça, nunca por acaso, cumpriu um papel importante na trama da Revolta da Chibata. Como estamos na semana da consciência negra e no aniversário da eclosão desse movimento, me pareceu oportuno recordá-lo.

Vamos aos fatos…

No dia 21 de novembro de 1910, no Rio de Janeiro, o marinheiro Marcelino Rodrigues, voltando de uma folga, tentou embarcar no navio Minas Gerais portando aquela que era a companheira daqueles marujos que viviam em duras condições, submetidos inclusive a castigos físicos, 22 anos depois depois da abolição da escravatura: a Cachaça – no caso, duas garrafas. Flagrado, ele tentou resistir e chegou a ferir um cabo, levemente, com uma navalha, antes de ser contido e preso a uma argola de ferro.

Marcelino recebeu uma pena severa: 250 chibatadas, dez vezes mais do que era o máximo previsto para uma falta como a dele, o que poderia significar a sua morte. A ideia era servir de exemplo para todos os que tentassem incorrer na mesma falta: levar a bordo a “amiga do povo”. Por isso, todos os marinheiros presenciaram, perfilados no convés, o castigo. O látego cantou e os muitos pontilhões de aço rasgaram a carne do mulato baiano que, em meio ao sofrimento, desmaiou, sem que isso contivesse o verdugo. Note-se que o açoite fora proibido por lei em 1886, dois anos antes da Abolição, mas sobrevivia na Marinha brasileira, favorecido pela hierarquia que, mais do que repetir, hipertrofiava as diferenças de classe brasileiras.

O fato fez com que os marinheiros, liderados por João Cândido, precipitassem a eclosão de um motim que vinha sendo arquitetado havia muitos meses. Aquele gaúcho filho de escravos nascido livre que passaria à história com o título de Almirante Negro tinha um motivo a mais para se solidarizar com Marcelino. Cinco anos antes, ele era cabo de esquadra quando foi flagrado numa falta terrível: trouxera a bordo e compartilhava com os companheiros uma garrafa de cachaça. Marujo exemplar, livrou-se do açoite, mas não de uma redução de seu soldo por dois meses. Dois anos depois, por aquela e outras faltas, ele seria rebaixado a marinheiro de primeira classe. Logo ele, considerado por todos um exemplo de bom comportamento e que já navegara, em dez anos de serviço, por África, América do Norte e Europa.

O resto da história é bem conhecido. Os marinheiros tomaram quatro navios e ameaçaram bombardear a capital caso suas reivindicações não fossem aceitas, chegando a disparar o canhonaço, sinalizando que estavam dispostos à luta de fato. As negociações, a rendição honrosa após a abolição da chibata, a anistia, a traição ao acordo feito, o assassinato tenebroso de vários revoltosos na prisão… A vida inglória do Almirante Negro, posteriormente, excluído da Marinha, vendendo peixes na Praça XV, com a saúde fragilizada pelos maus tratos na prisão…

O fim trágico da história não tisna em nada a grandeza do gesto e a figura do Almirante Negro, o herói que, como dizem Aldir Blanc e João Bosco, “tem por monumento as pedras pisadas do cais”. E que sempre manteve, como muitos heróis anônimos do povo brasileiro que se insurgiram contra a injustiça, sempre pisoteados, desmerecidos e traídos por certas elites que tentam condenar o país ao atraso, a nossa briosa Cachaça como sua companheira. E glória a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais!
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu

Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestresala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que, a exemplo do feiticeiro, gritava então:

Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias
Glória à farofa
à cachaça, às baleias
Salve o navegante negro
Que tem por monumento                                                                                                                    As pedras pisadas do cais
Mas salve
Salve o navegante negro
Que tem por monumento                                                                                                                    As pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo…

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